A BALANÇA DO JUÍZO: financiar igrejas, mesquitas, sinagogas, ou escolas de filosofia?

Régis Alain Barbier

amulheta

Honrando os nossos potenciais específicos em busca da manifestação plena da inteligência sensível e racional, poderemos temperar com coragem, justiça e prudência a natureza bruta oriunda da linha evolutiva.

A humanidade é dotada de intelecto sensível e racional, caraterística definidora. Respeitar a natureza humana é antes de tudo honrar esses talentos. Trair a razão é trair a humanidade. Mas o que demonstra o intelecto racional e sensível no que se refere à nossa identidade?

Que somos natureza ajuntando na nossa anatomia e fisiologia os vetores da evolução fisioquímica e biológica dos estados antecessores que, em conjunto, se conectam à totalidade da trama cósmica. Essa identicidade universal é o fundamento de todas as afinidades e harmonias. Não sendo demasiadamente rústico para se deixar prender a padrões culturais que cerceiam a liberdade e capacidade de escolher, é natural do ser humano exercitar a sua imaginação criativa até ampliar a inteligência em níveis sempre mais abrangentes de consciência, até a realização do ‘grande espírito’.

O significado do termo ‘grande espírito’ não se inteira nem capacita delimitado em logicismos, tampouco reportando a narrativas surreais creditadas como fatos, não é objeto nem fábula. Entende-se que a intuição teológica não reporta a disputas hipotéticas e exorbitantes referentes à existência objetiva ou não de entidades divinas ou espíritos entendidos como substâncias. Nos alcances e focos terminativos do intelecto, lugar onde a consciência intersecta com seus objetos, o que se refere à teologia e seus conceitos não se explicita por intermédio de perspectivas fideístas ou positivistas, mas metafísicas. As rixas inconcludentes onde se opõem as diversas formas de teísmos, ateísmos e cientificismo, passam ao largo do saber por acontecer, como ação e reação, na gravitação da perspectiva dualista historicamente encampada, prevalecente e não radicalmente desafiada. O que é divino só pode assentar em virtudes que não se conhecem por intermédio de sacerdotes, ritos e histórias tradicionais, mas sim pelo exercício criativo e sábio do intelecto razoável e sensível.

Quando não barrada ou insultada nas catequeses, envenenada em preconceitos, coagida a se renegar e decair crendo no absurdo, a inteligência, como um pássaro pedindo ar, exige satisfação, isto é liberdade. Em algum momento, em uma das portas da percepção, a harmonia tilinta ao celebrar concórdia e selar comunhão entre as coisas e o cogito, um encontro fecundo acontece catalisando uma reação inteligente e extática em que a totalidade do universo se reintegra no arco do saber pleno.

Apenas na jubilosa admiração dessas reconhecenças pode resplandecer a glória que extasia e agigante o espírito. Como é falso e triste afirmar ser a paixão um sentimento, gosto ou amor intenso que ofusca a razão! É precisamente a lucidez e intensidade culminativas do intelecto racional e sensível que permitem reconhecer com inteligência e gosto a unidade complementar da infinita diversidade, condição fundamental para a ressonância da harmonia, o surgimento da satisfação e quietude. É através desses encontros extáticos que a razão qualificada se justifica e se reinstala no arco dos seus limites, no cume do saber. Quando se reconhecem e cultivam esses potenciais, floresce o grande espírito onde, naturalmente, assente uma forma teológica monista, panteística, indutora de harmonia, plenitude e paz. Uma convicção positiva confirma a identidade e qualidade igualmente universal de todos os seres e eu. Apenas desta forma pode imperar o respeito e a lucidez, virtudes necessárias à instalação de uma sociedade livre, fraterna, igualitária e de governança apropriada, ou civítica. Estamos tratando das implicações da justa reconhecença da nossa natureza universal, ou da sua negação, nas dimensões societárias, efeitos esses bem reais e eficazes no sentido de projetar bonanças ou tragédias ao longo da nossa história. Neste texto, o que reporte a assuntos teológicos se explicita e se ilustra em evidências imediatas, apontam-se condutas e comportamentos, dedicações, devoções e suas decorrências nas relações e realizações humanas.

É da natureza do intelecto afunilar as suas buscas em dois eixos de perspectivas metafísicas, apontando duas possíveis relações entre os atributos conscienciais e objetivos (cogitans e extans). Uma perspectiva concebe esses atributos desintegrados, sendo a consciência entendida como algo sobrenatural e independente dos seus objetos, a outra enlaça esses dois atributos numa unidade, a consciência é consciência ‘de’ por necessidade; nas suas elaborações culturais um desses conceitos se cristaliza em metáforas e narrativas adquirindo contexturas, estabilizando e regulando condutas e práticas filosóficas ou doutrinas religiosas aptas a serem transmitidas e representadas.

São nessas definições e decorrências societárias, sejam apreciadas nas evidências e nas mensuras da inteligência satisfeita e alada, ou nas pautas dos ordenamentos que superestratificam a luz natural da razão a favor de sobrenaturais notícias registradas por predestinadas, que se determinam o surgimento das civilizações, o destino das sociedades e nações.

Em sociedades organizadas e de maior densidade populacionais, as manifestações espirituais tendem a adquirir envergaduras que se reafirmam encenadas em cerimônias e tradições implicando simbologias específicas e construtos que, na propagação dos ritos e na dependência das perspectivas fundadoras, podem evolver até catedráticas e faustuosas realizações; na religiosidade dualista os cultos e as missas, eventualmente, comovem os fiéis como comoviam e motivavam as tragédias da antiga civilização. A perspectiva metafísica cosmo-existencialista, monista, se afirma no despertar da inteligência livre e curiosa ao realizar que a infinidade das criaturas e a diversidade dos contextos perfazem um grande corpo universal sendo igualmente saberes integrando um grande e único espírito; ao inverso, a teologia dualista avilta a inteligência e deixa os convertidos perdidos e destituído de sentidos, alienados, achando-se coisas desgarradas e desunidas.

Dias antes da publicação deste artigo, o Papa Francisco afirmou que não estaríamos experienciando conflitos religiosos, mas embates econômicos – uma opinião ingênua, a realidade não é tão simplesmente delimitável. A natureza dos grandes conflitos é teopolíticas; as estruturas e doutrinas religiosas estão coligadas a espaços geopolíticos e culturais nos quais se compartilham identidades e interesses resultantes. Além dos  embates históricos e contumazes (envolvendo países soberanos ou territórios) que as diversas tradições teístas, culturalmente implicadas, tentam abrandar, perdura um embate mais profundo e genérico. Estamos testemunhando o encontro de tensões arcaicas em que operam dois fundamentos: pelejas clânicas que se ensoberbecem em afiliações e ideologias de caráter religioso, em oposição a providências que intencionam aumentar a lucidez, harmonia e liberdade filosófica.

Manipulações monetárias, imposições e demais regulagens sociocráticas (exercitadas nos cenários e nas arquiteturas culturais do velho regime apesar da capa democrática) abençoadas por doutrinas teológicas que advogam uma incompetência humana essencial e impossível de ser sanada com motivação própria, mas com inspirações sobrenaturais transmitidas por representantes do divino, não configuram espaços socioculturais propícios a transformações. A máquina societária, gigantesca sociedade anônima de capital fiduciário dirigida por meios sociocráticos, combina e afina com a estrutura teológica dualista; nos doutrinamentos das igrejas, os homens comuns também são vistos como incapazes de guiar a si mesmo, precisando de pregações proferidas por especialistas em contato privilegiados com o ‘grande poder’. Cultiva-se a ideia que as condições para uma vida satisfatória são de difícil alcance, que estar bem nesse mundo é excepcional, que a paz existe além-túmulo.

Negar os ditames da razão que apontam ser a existência como se manifesta o tabernáculo universal da nossa identidade para extrapolar postulando uma causa prima sobrenatural e dogmatizar a existência de seres superiores conhecedores de coisas que o homem comum não pode alcançar, mas acreditar sem compreender, destrói a humanidade e aniquila os seus potenciais e dons além de reforçar a rusticidade típica dos primórdios com pseudojustificativas esotéricas para impor e exaltar sacrifícios na esperança de recompensas póstumas.

Induzidos e treinados para não cogitar nem analisar os conceitos fundamentais referentes às origens, identidade e natureza, mas para obedecer e crer cegamente nas doutrinas, alienados, os jovens derivam sem perspectivas existenciais próprias e profundas, constrangidos a restringir o foco dos seus cuidados a coisas menores – o que ter, o que fazer? Uma doutrina que remove as virtudes que enraízem no exercício do cuidado resultando da justa compreensão da identidade e natureza própria deixe a humanidade sem rumo e sem sentido. Os apelos à misericórdia, fé, caridade e esperança não reparam a perda do essencial. Os benéficos auferidos pelos manobristas do desmando são efêmeros e ilusórios. Sem reconhecer e praticar as virtudes que demandam o bioma para manter a sua coesão e saúde, a humanidade por inteira é destinada a um fracasso estrondoso e destruição radical.

A Compreensão de que não somos algo desconecto e estranho ao mundo, mas a união impreterível de um corpo e espírito universal, compele ao exercício do cuidado. Cuidar é a essência de todas as virtudes, é a virtude. Como a seiva que alimenta as árvores das raízes às flores, o sangue que nutre a totalidade dos tecidos, a virtude é a substância da vida boa e saudável. Apenas uma sociedade virtuosa pode existir na plenitude dos seus potenciais.

O que, essencialmente, faz desaparecer a virtude dos convívios deixando a sociedade humana profundamente carente e doente? É a crença de sermos adventícios num mundo facultativo, vivendo culposamente num meio hostil e punitivo com o desígnio final de se salvar dessas impropriedades para habitar um lugar póstumo onde se supõe residir a virtude. Enxergar-se como criaturas inadequadas, deslocadas e banidas num ambiente alheio, remove a virtude do âmbito existencial, fenece os potenciais da cooperação, da conectividade e dos convívios gratificantes passando a imperar a improbidade.

Considerando o habitat estável e propício, é a qualidade cultural que passa a ser o fator mais categórico na determinação do destino de uma população. Quais os preceitos culturais que mais decisivamente determinam essa ventura?

A consideração é um desses preceitos essenciais. Como os habitantes se consideram entre si? A igualdade fundamental dos indivíduos frente às diretrizes da providencia (origem e destino final, necessidades, susceptibilidades e fragilidades semelhantes) gera equidade e fraternidade? Ou eles se consideram de modo diferenciado em função de eventualidades e circunstâncias históricas, derivações efêmeras comparados à igualdade e fraternidade antrópica que repousa no arco do tempo?

Como se identificam? Consideram-se partes integrantes da natureza, produções universais, junto com as demais entidades que coexistem e compartilham o bioma em relações de interdependências? Reconhecem a sua natureza conjunta, especificamente humana, como um dos elos de uma imensa linha evolutiva entranhada na trama universal considerada como espaço criador e sagrado? Ou então se imaginam distintos, oriundos de outras esferas? Estabelecem entre si relações diferenciadas em funções de mitificações, colocando-se como enviados para cumprir missões esotéricas explicitados por demiurgos?

Como se relacionam na hora de resolver conflitos? A população se discrimina e se desconsidera em função da cor da pele, de eventuais ocupações territoriais ou afiliações políticas e religiosas? Nos mesmos grupos étnicos, a população se desconheça em função de possas, laços familiares, gêneros e idades, outros critérios similares?

Apenas honrando os nossos dons e potenciais específicos em busca da manifestação plena da inteligência sensível e racional, poderemos temperar com coragem, justiça e prudência a natureza bruta oriunda da linha evolutiva; esperar dois milênios com fé a caridade de uma força oculta para poder evoluir comprove não resolver problemas, tampouco implementar nossos deveres.

Aceitar a inexplicabilidade da existência e reconhecê-la fundamental ancora o ato de existir nos parâmetros da criatividade universal; a noção de identidade se afirme na mesma sintonia, assentando-se paradigmático o reconhecimento e saber que o conjunto dos seres criados conforma o cosmos.

Tal assentimento respeita plenamente os potenciais da razão e honra, sem exorbitância, a nossa natureza e seus limites. Resulta dessa lucidez filosófica consequências fundamentais. A identificação universal do grande e variegado conjunto dos seres criados, de todos os reinos e todas as espécies, estabelece a base da igualdade e da fraternidade. Sucedendo a existência no presente, é na atualidade, mas enraizada na eternidade, que acontece a grande trama geradora de vida; uma realização que induz a um respeito profundo, firmando-se a responsabilidade de zelar pela natureza que é nossa. A unidade dos existentes frente às grandezas, forças e substâncias que os determinam induz a uma forma de governança dialógica e igualitária, civítica.

Portanto, estamos vivendo embates titânicos. São as perspectivas metafísicas, indutoras de formas teológicas, que como a mítica balança do juízo final, determinam o destino da sociedade humana. Apenas a perspectiva filosófica que reconhece a nossa justa natureza e identidade como um grande corpo e espírito universal será capaz de induzir a prática do cuidado que, como um rio, permite a circulação da virtude que enaltece e engrandeça a vida, honrando a existência. A perspectiva fideísta que rejeita essa identidade, faz pouco da natureza destrói a comunidade, sacrifica e castiga a vida na esperança absurda de poder encontrar na morte a unidade e a paz antes renegadas.

É o entendimento é a pratica sensível do que é divino, a teologia, que essencialmente determina a evolução e destino da sociedade humana: sejam, iniquidades, guerras e destruições em massa na perduração e predomínio da perspectiva teísta e suas religiosidades coligadas, apesar de toda a fé, caridade e esperança, ou, o reencontro da perspectiva panteísta, o advento de uma sociedade de respeito, próspera, feliz, justa, corajosa, prudente e temperada. Leitor, você também decide, templos ou escolas de filosofia?