Conhece-te a ti mesmo ~ Know yourself

espelho

With english translation below the text in Portuguese

Régis Alain Barbier

“Conhece-te a Ti mesmo e conhecerás todo o universo e os deuses, porque se o que procuras não achares primeiro dentro de ti mesmo, não acharás em lugar algum” – Frase atribuída a Tales de Mileto (624 a.C – 558 a.C) considerado o primeiro de todos os filósofos.

Poucos entendem o significado evocado pelos termos religião e culto. Impregnado dos conceitos arcaicos da escolástica, revividos cada vez que um sacerdote instalado numa edificação gótica eleva a hóstia sagrada dizendo “isso é corpo e sangue do senhor”, o comum dos mortais – todos que não praticam a filosofia, a arte mais difícil de todas, nos ditos de Álvaro Ribeiro e muitos outros – desentende a função mais criativa e regente da psique, confundindo interpretações intelectuais e idealísticas, desprovidas de intuição, com realidades: a realidade dos universais – a ilusão dos que imaginam que ideias gerais são coisas-em-si, representando realidades separadas do mundo sensível, volitando num além povoado de demônios ou anjos pensativos.

A interpretação e produção mítica, simbólica, são as funções mais basilares  e impreteríveis da psique, atuam estruturando, ou formatando, os enquadramentos metafísicos secundários internos e externos, isto é: a esfera gnosiológica onde se define a capacidade de alcance da visão e da intuição, e  a esfera fenomenológica  onde se demarcam os ordenamentos políticos das cidades e sociedades.

Se você imagina que existe um plano ideal separado do seu alcance intuitivo e visionário, impossível de ser penetrado sendo o que você é naturalmente, você está em situação difícil, deslumbrado, eventualmente, destinado a padecer nas garras dos fundamentalistas! Se você acha que essa ideia é absurda, que esse plano e conceitos não existem, você esta igualmente prejudicado, despojado da sua força poética, sem compreender, tampouco interagir efetivamente com as configurações políticas  da pátria, deixando para outros o poder de agir, sendo destinado a padecer em ditaduras.

Intuitivo, senão ideal, esse plano existe fortemente atuante, negado ou não; a sua integridade funcional define o homo sapiens verdadeiro e são. Esse plano existe, você sabe disso rememorando um pouco da sua vida pré-escolar ou pré-predicativa, o que acontecia no mundo das sincronias, quando a sua visão se diluía nas coisas visionadas e seu ser penetrava as paisagens em união, do zênite ao horizonte, revelando o que de fato é: um estado-de-ser fenomênico e universal, hoje desconhecido e perdido.

Se você acredita que existe uma esfera divinal e regente acima da sua cabeça, invisível, operando como um céu de constelações mandatórias, a partir de um espaço que lhe é desconhecido por ser o que você é; mas, reservadamente, visitado por outras criaturas parecidas com você, humanas igualmente, mas especiais, escolhidas, prediletas das forças supremas, você é um crédulo, escravizado, dominado e superestratificado pelas ideias, pelos conceitos, pelas imagens e pelos mitos. Lançou fora a sua intuição profunda e visionária, desistiu de ser poeta e filósofo, saiu da linha vanguardeira da evolução antes destinada a revelar a verdadeira humanidade na sua forma mais autonômica e poética, criativa. Se você combate essa  crença, jogando fora a criança e o berço, eliminando a visão-intuição, junto com o entendimento do significado dessa função visionária, você, igualmente, se torna menos do que deve, um escravo dos objetos, um produto, um amante do ter, da técnica, preso na mecânica do mundo e a ela agregado como um simples recurso, um pião na engrenagem, auxiliando a destronar a arte da filosofia genuína a favor da arte da arrumação.

Esse desentendimento dos assim chamados ‘universais ’ reflete uma ignorância existencial e basilar: o desconhecimento de que todas as categorias, da matéria densa até as visões e intuições mais abstratas e sutis, fenómenos e ‘revelações’, pertencem ao estado-de-ser que somos, integrando, com magna totalidade e funcionalidade, a esfera existencial. O materialismo e idealismo são duas pragas cognitivas, pilares da disfunção societária em que estamos metidos, afastados  da pátria verdadeira, local sublime onde dormem  os ancestrais e entre nós  vivem os deuses.

Acreditar nesses mundos  das ideias inalcançáveis visitados  por elites, ou reagir apostando num mundo de objeto, denigra e reifica a inteligência lúcida  e poética em um sistema de automatização sofisticado, uma elaboração cultural que se afasta da linha evolutiva para entrar numa vereda destinada a erradicar o homo sapiente, hoje raça em perigo de extinção iminente.

Apenas reconhecendo, como qualquer criança saudável, que somos o que se apresenta a nós, fará ressurgir os arquitetos de que carecemos  para reconstruir a cidade perdida, o império da paz, a pátria verdadeira onde todos são criaturas diletas do sagrado. Reconhecendo que a consciência coabita com o cosmos em união, faz compreender que as nossas visões, sonhos e mitos decorrentes  são os instrumentos que definem o nosso valor e sentido, os potenciais a que fazemos jus: o que se revela a cada um reflete o que deve ser posto e examinado no anfiteatro dos diálogos, é a fonte de lucidez e saber que deve motivar os nossos movimentos e atos conjuntos como grupos sociais.

A compreensão dessa união cósmica e fenomênica, entre a consciência do mundo e o mundo da consciência, faz compreender o que se sabe naturalmente por sermos  filhos e filhas do universo: que tudo o que nos cerca é sagrado, devendo ser preservado e cuidado como cuidamos de cada um dos nossos cabelos; que ninguém e nada deve ser grosseiramente usado ou desrespeitado, porque somos um só organismo e ser. É esse o entendimento que hoje amadurece,  a frutificação da inteligência que poderá fazer uma diferença significativa nos destinos da humanidade.

Know yourself

Translation by Stephen Cviic

“Know yourself and you will know the entire universe and every God, because if what you´re looking for you firstly don´t find inside yourself, you won´t find nowhere” – Phrase supposedly asserted by ‘Thales de Mileto’ (624 b.C – 558 b.C, considered to be the first of all philosophers.

Very few understand the meaning evoked by the terms religion and cult. Impregnated with the scholastics archaic concepts, revived every time a priest installed in a Ghotic building raises the sacred Eucharistical bread saying ‘this is Lord´s body and blood”, the common of the mortal beings  – everyone not practicing philosophy, the most difficult art of all, as said by Álvaro Ribeiro and many others – misunderstand the psyche´s most creative and ruling function, entangling intellectual and idealistic interpretations, deprived of intuition, with realities: the reality of the universals – the illusion of those imagining that general ideas are things-in-itself, representing realities separated from the sensible world, flying beyond a settlement of musing devils or angels.

The interpretation and mystic, symbolic production, are the psyche´s most fundamental and unsurpassable functions which act structuring or formatting the inner and outer secondary metaphysical framings, that is: the gnosiologic sphere where one can define the vision and intuition reach capacity, and the phenomenologic sphere where the political ordainments of cities and societies are demarcated.

If you imagine that there is an ideal plan separate from your intuitive and visionary reach, impossible to be penetrated, being what you naturally are, you undergo a difficult situation, eventually fascinated, destined to suffer in the fundamentalists´ claws! If you think this idea is absurd, that this plan and concepts do not exist, you are equally impaired, deprived from your poetic strength, without neither understanding nor effectively interacting with the  country´s political configurations, leaving to others the power to act, being destined to suffer under dictatorships.

Intuitive, but ideal, this plan exists strongly active, negated or not; its functional integrity defines the true and sound ‘homo sapiens’. This plan exists, you know that shortly remembering about your pre-scholar or pre-predicative life, what happened in the synchronies world, at the time your vision became thinner when viewing things and your being penetrated landscapes in union, from zenith to the horizon, revealing what in fact it is: a phenomenic and universal state-of-being, now unknown and lost.

If you believe that a divine and ruling sphere exists above your head, invisible, operating as a sky of mandatory constellations, from a space unknown to you for it is what you are; but, reservedly, visited by other creatures, looking like you, equally human, but special, chosen, favorite of the supreme forces, you are a credulous person, enslaved, dominated and super-stratified by the ideas, concepts, images and myths. You threw away your deep and visionary intuition, gave up being a poet and philosopher,   abdicated from the pioneering line of evolution, formerly destined to reveal the true humanity in its most autonomic, poetic and creative form. If you fight this belief, throwing away the child and the cradle, eliminating the vision-intuition, together with the understanding of the meaning of this visionary function, you, equally, become less than you ought to, a slave of objects, a product, a lover of having, of technique, captive in the world mechanics and aggregated to it as a simple resource, a dent in the gear, helping to dethrone the art of genuine philosophy in favor of the art of arrangement.

This misunderstanding of the so called ‘universals’ reflects  an existential and basic ignorance: not knowing that all categories, from the dense matter to the most abstract and subtle visions and intuitions, phenomena and ‘revelations’, belong to the state-of-being that we are, integrating, with great entirety and functionality, the existential sphere. Materialism and idealism are two cognitive plagues, pillars of the societarian  dysfunction where we are engaged, separated from the true motherland, sublime place where the ancestors sleep and the gods live among us.

To believe in these worlds of unreachable ideas visited by elites, or to react, betting in a world of objects, denigrates and reifies the lucid and poetic intelligence in a sophisticated automatism system, a cultural elaboration that deviates from the evolutive line to enter into a path destined to eradicate the wise ‘homo’, now a race in danger of imminent extinction.

Only acknowledging, as any healthy child, that we are what appears to us, will cause to emerge again the architects lacking in us to rebuild the lost city, the empire of peace, the true motherland where everyone are beloved creatures of the sacred. Recognizing that the conscience cohabits with the cosmos in union, makes one understand that our elapsing visions, dreams and myths are the instruments defining our value and sense, the potentials we are entitled to: what reveals itself to each one, reflecting what must be displayed and examined in the dialogs amphitheater, is the source of lucidity and knowledge that must motivate our joint movements and acts as social groups.

The understanding of this cosmic and phenomenic union, between the world conscience and the conscience world, makes one understand what is naturally known why we are sons and daughters of the universe: that everything around us is sacred, and should be preserved and taken care of as we take care of each one of our hairs; that no one and nothing should be rudely used or disrespected, because we are a single organism and being. This is the understanding that matures today the fruits of intelligence which might make a meaningful difference on the destinies of humanity.