RESUMO DESCRITIVO do 1º Colóquio Internacional: Panteísmo, Princípios Filosóficos

Um Renascimento em Teologia Política – de 14 a 17 de novembro 2013, Olinda 

cruz grega pequeno

Tivemos sucesso nesse 1º Colóquio Internacional: Panteísmo, Princípios Filosóficos  – Um Renascimento em Teologia Política – de 14 a 17 de novembro de 2013, Olinda, dedicado ao estudo da perspectiva metafísica panteística e suas consequências, destacando o ordenamento gnosiológico ou acesso interior ao saber, e o ordenamento societário ou acesso político aos recursos; sendo a liberdade e criatividade, num sentido amplo a autonomia criativa, consideradas “bens existenciais” fundamentais.

No primeiro ordenamento,  investiga-se como a visão profunda de “si no mundo”, mitos correspondentes e formações teológicas correlacionam com decursos cognitivos, potenciais produtivos nas esferas emocionais, intelectivas, afetivas e estéticas, no acesso ao saber, às intuições reveladoras de sentidos finais entre outros, e, no segundo, destacando como os eixos de perspectivas metafísicas determinam diversas estruturações societárias, eventualmente desaguando na direção de regimes totalitários e sectários, repúblicas sociocratas, ou em direção a estruturas dialógicas e dialogais, espaços existenciais de compartilhamento.

Nesse primeiro encontro, trouxemos, na forma de mesas redondas, palestras e exposições de livros, os principais argumentos, discursos e tecnologias operando na investigação dessas conexões entre a filosofia considerada primordial e profunda e a modulação dos potenciais individuais e coletivos, vislumbrando os decursos políticos correlatos aos ordenamentos metafísicos, teológicos e míticos, assim como as utopias científicas cogitáveis nas diversas ordens; abrimos um espaço específico para percorrer as principais correlações.

O colóquio foi promovido pelo “Instituto Universo Panteísta”, o que significa pelos organizadores e fundadores desse instituto, aos quais, na qualidade de presidente, agradeço profundamente. O IUP é uma organização dedicada ao panteísmo que é a visão teológica da estrutura essencial e substancial da cosmo-existência como radicalmente imanente à criação e manifesta num ordenamento evolutivo autopoiético. Os subsídios e recursos laborais permitindo a realização desse colóquio foram doados pelos participantes e organizadores.

O IUP, como organismo criador dessa iniciativa pioneira, confere aos debates um posicionamento e orientação inerentes: de acordo com a tese do Instituto, duas vias, ou perspectivas, norteiam os destinos do ser humano como criatura natural e cultural. Uma via corresponde ao eixo de perspectiva tipicamente descrito pelos culturistas transcendenteístas, incluindo a barreira kantiana na discriminação dos campos do “sujeito” e “coisa-em-si”, confirmando e reestabelecendo o fundamento metafísico dualista enraizado na escolástica e que fortalece os processos de dominação brutais, históricos e culturais, âmbitos societários dominantes, superestratificações políticas que ainda perfazem a civilização, justificando e consagrando singularidades, sectarismos e hierarquizações de origens abraâmica, masdeísta e greco-romana. A outra via corresponde ao eixo de perspectiva metafísica descrita nos trabalhos do IUP como “cosmo-existencialista”, com enraizamentos amplos, notoriamente nas estruturas sociais agrárias ou silvícolas historicamente não superestratificadas, notoriamente na Jônia, berço primeiro da filosofia, ou Primeira Escola Eleática, e no mundo antigo epitomado como “universo de Lao tsé” e inúmeros outros âmbitos culturais locados “além e ao redor das muralhas da poderosa Roma” nos quais prevalecem relações mais eco-humanistas e cujos princípios filosóficos e científicos explicitados e inerentes se projetam como conceitos e recursos essenciais a um reordenamento ético e sapiente da ação e da pressão existencial humana cujos resultados contemporâneos são bem distantes de fazer jus ao epíteto “sapiente”.

Do ponto de vista da frequência, esse primeiro Colóquio foi um sucesso. Lembro a chamada  da prestigiosa “International Liberty Conference-ILC” promovida pela “International Society for Individual Liberty – ISIL” e acontecido em Lausanne, dia 25 Agosto, 2013; essa sociedade cujo libertarianismo enraíza nos conceitos de Bastiat, Molinari, passando pela Escola Austríaca de Economia com os seus expoentes como Ludwig Von Miss, Rothbard ou Hayek, entre outros, promoveu a sua quadragésima conferência com mais de 28 convidados internacionais, incluindo Shin Dong-hyuk – a única pessoa que consegui escapar de um campo de trabalho da Coreia do Norte – e Adedayo Thomas, um ativista da Nigéria, internacionalmente premiado: pasmem apenas 100 pessoas se inscreveram na ILC-2013, o que mostra como os assuntos vanguardistas e pioneiros costumam ser, se não boicotados, desconsiderados; os argumentos que magnificam a autonomia do ser humano intimidam os que usufruem das estruturações e benesses do sistema e status quo. Nesse primeiro colóquio internacional e vanguardeiro sobre as perspectivas profundas do panteísmo e consequências teopolíticas, acontecido em Olinda, no Hotel 7 Colinas, tivemos 68 pessoas oficialmente inscritas e dezenas de visitantes que compareceram por um dia ou para assistir a uma palestra ou mesa redonda específica. A foto considerada oficial do nosso evento e as demais retratam esse dinamismo.

A cerimônia de abertura e vinho de Honra aconteceu na quarta à noite, com a participação de Glória Lofti; Wilson Gonzaga; Maria Luisa R. Ferreira; Danielle Pitta; Régis A. Barbier; a Representante da Prefeitura; José Maria Tavares; Roberto Otsu e Thiago Aquino; apreciamos as apresentações musicais de Pierre Stocker e Paulo Jales. O colóquio foi bem estruturado com a possibilidade de confraternizar nos coffee breaks e refeições; promoveram-se 06 palestras e 04 mesas redondas, garantindo oportunidades para questionamentos; todas as atividades foram gravadas e filmadas; reportagens fotográficas e jornalísticas paralelas documentaram a totalidade do encontro, material agora pertencente ao IUP , integrando o seu patrimônio e acervo cultural que será brevemente disponibilizado aos associados em dia com suas anuidades. Está planejado para janeiro/fevereiro a colocação on line desse acervo e a edição dos Anais-2013 do colóquio. O “Tabloide Universo Panteísta – Tupan” teve a sua primeira edição lançada durante o evento; reportagem assinada por Igor Souto. Os materiais gráficos, pastas e programas, idealizados por Paulo Jales e produzidos graça à dedicação de Crisitane Machado foram justamente apreciados.

Na qualidade de presidente do instituto, proferi a primeira palestra da sexta-feira, dia 15, das 8h às 10h. Procurei definir a natureza, fundamentos e importância do panteísmo como conceituação civilizatória basilar, entre outros, evocando alguns dos argumentos detalhados no livro “Panteísmo a religiosidade do presente”. Numa abordagem sucinta enfatizei que tudo se manifesta e se inscreve numa estrutura primordial que se reconhece por intermédio de uma perspectiva metafísica entendida como fenômeno radical; um reconhecimento igualmente condicionado pela estrutura e pela consciência em apercepções complexas envolvendo os intelectos sensíveis e racionais do ponto de vista cognitivo e do ponto de vista cultural, a “marca batismal”, suas narrativas míticas junto com uma impressão que denomina “ortolocutória” e que se correlaciona com as formas arquitetônicas, etiquetas, usos e costumes vigentes no âmbito cultural e introjetados como estruturas comportamentais modeladoras. Os binômios fundamentais dessa formação cosmo-existencial se evidenciam ordenados em pares fundamentais e nucleados ao redor das substâncias ou atributos opositivos e complementários redefinidos por Descartes e Espinosa na alvorada da modernidade, uma união paradoxal das coisas da consciência e do mundo; nesse ordenamento, a totalidade manifesta e organiza uma síntese perenal que o olhar lógico pode categorizar como um xadrez configurando duplas integradas como teses e antíteses, consciência e matéria,  coisas do intelecto sensível e racional; divisões cujo olhar, ampliado em abstrações infinitas e poéticas, reconhece como polaridades hipotéticas colapsadas em unidade paradoxal no momento criativo e absolto de “Kairos”. Uma vez conceituado um ou outro eixo possível de perspectiva metafísica, seja o denominado transcendente-transcendental (TT) ou cosmo-existencial (CE), manifestam-se as epistemes civilizatórias fundantes com as suas constelações paradigmáticas coligadas que conferem formas às coisas da pedagogia, metodologia científica, economia, política, teologia e outras. Existindo dois eixos de perspectiva metafísica – TT e CE – é possível, com tecnologia, recurso e saber adequado, reverter a cosmovisão introjetada ao nascer em cultura; sendo o panteísmo, teologia correspondente à perspectiva cosmo-existencial (CE), uma expressão unificadora podendo ser dita, sensível, pagã, indígena, naturalista, eco-humanista, expressão filosófica de equilíbrio e redirecionamento radical, frente às consequências e ordenamentos históricos culturais dualistas, idealistas, opositivos, sectários, racionalistas, herarquistas e autoritários que reportam à cosmovisão dominadora (TT) ainda imperando e enraizada em atavismos e visões pobremente decodificadas.

Depois do coffee break, reiniciamos os trabalhos com uma mesa redonda dedicada ao estudo da “Dimensão do sagrado no panteísmo, o panteão, os arquétipos, a transcendência”. Participaram dessas mesa, Aurino Lima (Doutor em educação – UFPE; mestre em psicologia – UFPE; especialista em Psicologia Transpessoal – ABPT/Dharamsala, Índia; Biopsicologia – Instituto Visão Futuro; Professor do Programa de Pós-graduação em Educação e do Departamento de Psicologia e Orientação Educacionais da UFPE); Glória Lotfi (psicóloga e presidente da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica Associada Rio de Janeiro) e Danielle Pitta (presidente fundadora do Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre o Imaginário – UFPE; pesquisadora do Videlicet – Estudos em Intolerância, Diversidade e Imaginário – UFPB). Um dos pontos importantes foi locar o arquétipo; nesse processo demonstrou-se a busca de Jung na tentativa de conciliar os aspetos e estruturações universais e as manifestações necessariamente singulares dos arquétipos. Tentou demonstrar-se com o arquétipo, evocando um processo abstrato e universalização dos peculiares fornecia um meio de transcendência. Embora não sendo considerada uma produção do sujeito, mas um fenômeno possivelmente radical, o arquétipo manifestando-se através de imagéticas passa a dinamizar o imaginário, lugar a partir do qual ele se afirma na produção de atitudes e comportamentos. Dessa forma caminhou-se na direção de uma conexão entre a metafísica, o arquétipo e as narrativas míticas, com evidentes consequências teóricas, teológicas e societárias.

Depois de um almoço animado num dos restaurantes tradicionais de Olinda, reiniciaram-se os trabalhos com a palestra da Professora Maria Luísa Ribeiro Ferreira (Professora Catedrática da Universidade de Lisboa; Investigadora do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa e Coordenadora de Filosofia da Sociedade Científica da Universidade Católica Portuguesa): “Deus sive Natura” dedicada ao estudo da Ética de Baruch de Spinoza. Tratou-se de uma palestra clássica, muito bem estruturada, com slides e grande cuidados didáticos; a professora Maria Luísa apresentou a doutrina do filósofo de modo sucinta e precisa, enfatizando os aspetos metafísicos, explicitando os atributos e modos spinozistas de compreender “Deus, ou natureza”. Trata-se de uma introdução altamente recomendada, necessária e edificante, ao pensamento e filosofia matematizada de Baruch de Spinoza heremizado, afastado e amaldiçoado pelo Conselho da Sinagoga em 27 de Julho de 1656, em Amsterdam, “com o consentimento de Adonai” – anátema pronunciado contra Spinoza.

Depois do coffee break da tarde, o colóquio continuou com a palestra do Prof. José Maria Tavares (Researcher of the Institut de recherche interdisciplinaire sur les sciences et la technologie – Université de Strasbourg – France; Cordinator of the Etnomedicine Seminar): “Terapia Panteísta ou Religião da Natureza: expressão vanguardeira da religiosidade panteísta em Pernambuco”. Tratou-se de uma aula surpreendente, resultante das pesquisas do professor e parcialmente descritas no livro “Terapia Panteísta ou Religião da Natureza”. Explicita-se que um pedreiro de profissão, José Amaro Feliciano (Zé Amaro), fundou em 22 de Janeiro de 1922 uma nova religião denominada “Movimento Panteísta Círculo Deus Verdade”. Após a fundação, explicita o professor Tavares: “(…) o movimento começou a atrair a atenção de muitas pessoas (…), propondo aos recifenses um culto de adoração aos elementos da Natureza”. Segundo o professor, “o grupo seguia em procissões nas matas, rios e quedas d’água, numa cerimônia com elementos rituais que não apresentaram relação com a tradição local. Isso fez aumentar tanto a frequência,  a motivação do público. Em pouco tempo tornou-se motivo de interesse de políticos, jornalistas e pesquisadores”. Segundo a “Revista Noite Ilustrada” do Rio de Janeiro, a primeira a falar do fenômeno em 22/03/1933, a religião se baseava na adoração da Natureza com características “panteístas”. Ainda em 1933 Pedro Cavalcanti publicou um artigo intitulado “Investigações sobre Religiões no Recife – Uma seita Panteísta”. Gilberto Freyre também conhecia a nova forma religiosa e publicou e estudou as cerimônias dos “adoradores das águas” buscando traços e fazendo analogias com outras religiosidades. Nos estudos de Waldemar Valente publicados em 1966, “Panteísmo em Pernambuco”, o autor considera o grupo como um “Panteísmo sincrético, ameríndio, esotérico e uma mistura de diversas religiões oriundos de uma criação popular na miscigenação de vários elementos constitutivos. Ela se situa nas fronteiras estabelecidas, convencionalmente, por variáveis como urbana e rural, moderno e tradicional, o analfabético e o letrado, o moderno e o primitivo”. O “Movimento Panteísta Círculo Deus Verdade” durou até o falecimento do fundador, estendeu-se até o 22 de Novembro de 1964, e pode ter sido a primeira formação religiosa oficialmente reconhecida e largamente mencionada trazendo o nome “panteísta”  na sua denominação, fazendo de Pernambuco um lugar pioneiro, o berço do que Vicente de Lima, numa publicação no Jornal do Comercio em 1937, caracterizava como a “religião do futuro”.

O sábado 16 continuou bastante intenso, iniciando com a palestra do Prof. Thiago Aquino (mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Pernambuco; doutorado em 2007 pela Ludwig-Maximilians Universität München – Alemanha; Professor da Universidade Federal de Pernambuco): “A Dimensão Teológica da Política”. O professor, numa aula pioneira explicitou de diversas maneira como a visão de um deus poderoso e distante, de acesso reservado a poucos escolhidos ou em circunstâncias especiais, colaciona com formas de governo reservadas ou oligarquias. O professor correlacionou como a visão antropomórfica de um deus poderoso reinando nos campos surrealistas do imaginário, castigando os homens com doenças, maldiçoes e sofrimentos expiatórios, recompensando-os com saúde, prestígio, sorte e sucesso, correlacionam, por transferência e projeção, com o poder humano, revestindo os dominantes, reis guerreiros, políticos e outras figuras imponentes, de uma auréola heroica e divinal, de alguma forma transferindo o poder de Deus à elite que passa a reinar como se fosse imbuída de um poder divinal, propendo à instalação de governos autoritários, normativos e sectários. Demonstrou-se como a ideia do poder divino, sua locação e reserva, determina os usos e costumes públicos e políticos.

A mesa redonda da parte da manhã foi dedicada ao estudo das formas religiosas brasileiras e sincréticas, pesquisando as suas doutrinas e como se correlacionam significativamente com as noções essenciais do panteísmo. Participaram dessa mesa Carlos Leandro (estudioso veterano da Ayahuasca e terapeuta), Wilson Gonzaga (médico psiquiatra; membro do Grupo Multidisciplinar de Trabalho instituído pelo Conselho Nacional Anti-Drogas – Conad – para definir as regras para o consumo da ayahuasca no Brasil) e Gabriel Kafure (mestre em filosofia) tendo sido facilitada por Paulo Jales (Designer gráfico e Webdesigner, artista e estudioso veterano da Ayahuasca); destacou-se como o sincretismo religioso aportou um forte naturalismo aos modos racionalistas e idealistas da forma religiosa judaico-cristã; nessas religiosidades nascidas de um encontro multicultural acontecido em cenário tropical, a visão do divino e a teleologia se inclinam para um plano mais sensível, capaz de evocar o numinoso através da estética e das percepções ampliadas com uso de substâncias naturais usadas como sacramentos. Nessas formas religiosas em que cultos extasiantes acontecem mediante danças e cantos evocadores de virtudes e poderes, o Sol é considerado o plano divinal, ou “astral superior”; as estrelas sinais de pureza espiritual; as flores e plantas se revestem de espíritos nobres e destacados; o conceito intenso de “natureza divina”, os decursos animistas, vitalistas e panenteísticos correlatos, conferem a essas formas religiosas nativas do Brasil, uma significativa aproximação teórica com o panteísmo filosófico ainda necessitando ser melhor delimitada.

Depois do almoço acontecido nos restaurantes típicos da cidade histórica, iniciou-se o trabalho da tarde com a mesa redonda “Sintonia entre Paganismo e Panteísmo”; aconteceu no jardim do hotel buscando estabelecer  paralelos entre as duas visões; participaram Luan Silva (Designer Gráfico; Neopagão desde 2002; Praticante de Bruxaria Tradicional; Coordenador do Espaço Neopagão, organização que traz eventos para neopagãos; Organizador do Encontro Pernambucano de Neopaganismo, evento anual, que abrange os estados de Pernambuco, Paraíba e Ceará); Saulo Gimenez (Graduando de Licenciatura em Ciências das Religiões pela UFPB; Sacerdote da Wica Tradicional; Praticante de Bruxaria Tradicional; Magister em Necromancia; Membro da Comissão de Igualdade Racial e Diversidade Religiosa da OAB-PB; Membro do Movimento Nacional de Direitos Humanos; Presidente da HEX – Associação de Covens Bruxos e Neófitos do Brasil (HEX-ACBNB), organização que traz eventos para Wiccans, BTs, Neopagãos e Simpatizantes; Organizador do Encontro Wica da Paraíba, evento anual) e Karina Oliveira (graduada em História, mestre em Ciências da Religião e professora de Filosofia e Sociologia da Faculdade Joaquim Nabuco). A mesa redonda foi coordenada por Marina Peruzzo, organizadora do colóquio, e foi extremamente produtiva. De maneira sucinta, os participantes descreveram a origem, história e diversidade do Movimento Neopagão. O que mais caracterizou os debates foi o reconhecimento de que o panteísmo não é um “monoteísmo” no sentido habitualmente temido pelos neopagões cujas formas religiosas plurais foram barbaramente suprimidas pela Igreja Católica e Romana e demais intolerâncias sectárias. Esse debate se encontra rigorosamente explicitado no artigo denominado “Da Ideia de Deus – você conhece, ignora ou acredita?”, encontrável no sítio oficial do IUP. O monoteísmo, justamente  temido e abominado pelos neopagões, é a forma teísta típica da teologia judaico-cristã (da igreja católica e romana e suas decorrências) e muçulmana, em que o antepositivo grego “mono” significa “único” no sentido de “só, solitário, isolado”, isto é uma parcialidade onde se entende deus como exclusivo por não pertencer ao reino das nossas origens materiais, às coisas ligadas à sensorialidade, inclusive sexual, e, à matéria substancializada como a vivemos e conhecemos no mundo em que existimos, ou, de alguma forma estabelecendo relações exclusivistas com um grupo ou nação, implicando formas de messianismo, elitismo, salvacionismo redentor e outros autoritarismos. Ficou claro e explicitado que,  no panteísmo,  o “pan” evoca uma unidade sistêmica, uma trama unitária e não uma exclusividade. Denotou-se que na teologia panteísta e neopagã os aportes culturais não excelem, mas complementam os dados oriundos da intuição e da relação imediata com a natureza, ampliando-se a compreensão do termo “natureza” à luz da meditação filosófica, como Cosmos: relação unitária e fenomênica entre o indivíduo e o mundo. O equivalente desse “um”, que no panteísmo é a perspectiva metafísica que é monista, expressa-se no neopaganismo como uma possibilidade universal de relação e conectividade: não há entidades “espirituais” exclusivas e reservadas de acordo com preferências de ordem nacionais ou tribais e destinadas a reabsorver as entidades “materiais” ou a matéria. Tanto no panteísmo quanto no paganismo não se articulam um jogo de oposições rigorosas ou metafísicas no entendimento sistêmico, não há dicotomias na estrutura profunda; o sentido de sagrado, numinoso, ou divino, integra a totalidade das coisas naturais, uma virtude que não exclui nenhuma expressão cósmica, incluindo o mundo terrestre, os planetas, as estrelas, a totalidade das coisas que se conhece e desconhece. No panteísmo, “pan” evoca uma “unidade” radicalmente inclusiva e não uma “exclusividade”, uma unidade que nada separa de substancial: um só Cosmos, uma única trama, em que existimos e a que pertencemos identificados e enraizados nos processos atuais e originais de transmutações. Embora diferenças existam – as ênfases esotéricas características do neopaganismo são, em geral, estranhas aos modos filosóficos do panteísmo – admirou-se igualmente a capacidade sintônica entre o neopaganismo e o panteísmo de desafiar o “exclusivismo monoteístico”, as reservas fideístas, em que uma igreja, uma nação, um povo acham-se predestinados a uma relação exclusiva com o divino: do ponto de vista da praxe os ritos e as “artes dos altares” não são apanágios de igrejas ou grupos mais podem ser individualmente realizados, evocados e construídos de acordo com o entendimento de cada um, por uma multidão de praticantes todos dotados do poder de mediar relações com o que se entende como divino.

A palestra seguinte, durante à tarde do dia 16, foi a explanação de Roberto Otsu – Professor de Taoismo na pós-graduação em Psicologia Transpessoal da Faculdade de Ciências da Saúde (Facis) em parceria com o IPPT, Instituto de Psicologia e Práticas Transpessoais em São Paulo – que explicitou o taoismo como sabedoria da natureza. O professor demonstrou como o Tao, como “caminho”, se revela como unidade indiferenciada de onde surge o conceito de “dois” (yin e yang), não como oposições ,  mas lados necessários da mesma unidade, produzindo por extensão, a totalidade do “mundo e do conhecimento” em harmonia. Não passou desapercebido que as raízes da filosofia taoista são as mesmas da filosofia profunda, o Yin e o Yang como atributos da unidade podem ser entendidos como configurando um “rebis” – duas substâncias ou dois atributos – estabelecendo um paralelo com as “res cogitans” e “extensa”. O que especificamente encanta no taoismo filosófico é consciência dinâmica da inter-relação de todas as coisas numa trama unitária assim como o conceito latente de perfeição resultante da adequação natural das circunstâncias ao conjunto e totalidade num processo universal; ao perceber que todas as entidades (inclusive nós mesmos) são interdependentes e constantemente redefinidas pela mudança das circunstâncias, passamos a ver todas as coisas como elas são e a nós mesmos como apenas uma parte do momento presente e transmutante. Essa compreensão da unidade nos leva a uma apreciação dos fatos da vida e do nosso lugar neles como momentos do estado-de-ser eternamente mutante, o que sintoniza com os aportes da sabedoria filosófica dos epicuristas, estoicos, pré-socráticos e do panteísmo como apreciação filosófica da natureza – a vida deve ser aceita e apreciada como ela é, não rejeitada ou deturpada para ser o que ela não é.

Na noite  do dia 16, os participantes se congratularam participando de um animado jantar festivo com apresentações musicais e a destacada participação de Pierre Stocker (França) e Paulo Jales (Ceará).

A palestra final, do dia 17 de novembro, foi proferida por Nara Correa – Especialista em Gestão Ambiental, Mestranda em Desenvolvimento e Meio Ambiente na Universidade Federal de Pernambuco; Docente do programa de pós-graduação em Gestão Ambiental e Sustentabilidade da Escola Superior de Relações Públicas, Pernambuco – com o titulo de “Panteísmo e Ecologia, uma relação profunda”. A intenção da palestra foi rediscutir a filosofia ambiental a partir da visão panteísta. A concepção da relação entre humanidade e natureza varia de acordo com as perspectivas metafísicas; a visão dualista da relação homem versus natureza, sua ancoragem numa metafísica transcendente, promove posicionamentos transitórios do agir no mundo; em contraponto a essa posição, a afirmação de uma metafísica imanente promove um comportamento integrativo em relação à natureza. A Professora Nara Correa demonstrou que as contradições relativas a uma visão que entende a natureza como casa transitória para a “vida verdadeira” no além-mundo impede um agir coerente com a vida; defendeu a necessidade de romper com a dicotomia e reconstruir a naturalidade humana, elaborando uma ecologia coerente com a vida, uma ecologia da imanência, ou panteística.

Depois do coffee break, o salão de conferência do evento foi transformado num anfiteatro – retirou-se a mesa dos palestrantes organizando os assentos em círculo, todos sendo convidados a participar desse diálogo em que a “mesa redonda” de encerramento, “A alvorada de uma nova cultura”, presidida por Victor Leão, se transformou. O convidado internacional Giancarlo de Aguiar – Membro do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa; Mestre em Filosofia da Natureza e do Ambiente pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa; Especialização em Psicologia Transpessoal pelo Instituto Catarinense de Pós-Graduação ICPG – proferiu a sua exposição “O fim da Pólis e o Renascimento da Aldeia Pagã Transtropical” onde se enfatizou o momento emergente como um “divisor de águas entre o homo-techinologicos e o homo-elementum-naturalis”, precisando repensar a capacidade de criar, por um novo kairos, num outro sentido de criação e arte. A humanidade será “reintegrada na Natureza a partir do momento que suas funções psíquicas (o pensar, o sentir, o intuir e a sensação) estiverem ligadas aos elementos e aos reinos que o constituem”. O palestrante defendeu a tese de que seria impossível estabelecer uma filosofia da práxis pelo Panteísmo como bioética política “sem repor a ideia de paraíso no ecossistema, repensando os mitos de acordo com a filosofia, compreendendo o deus Pã como a força vital e grande mantenedor da vida no planeta“. “(…) Ainda  estaria simbolicamente morto o “deus Pã” nos porões da Academia, ou debaixo da Pólis, da metrópole e da megalópole, enterrado no bosque-jardim dedicado à deusa Atena, num túmulo juntamente com o Academo, dois seres na mito-narrativa de um mesmo fenômeno?”.

Muitos expressaram o seu entusiasmo e felicidade por participarem desse evento que foi considerado pioneiro, o renascimento de Pan, destinado a marcar um ponto de mutação na historicidade da “cidade” como conceito filosófico. O colóquio internacional terminou em ambiento festivo, com a distribuição dos “diplomas objetos” idealizados por Valdemir Cruz e com palavras de agradecimento e congratulação aos que participaram do evento como correalizadores, seja por integrarem a comissão organizadora, seja por contribuírem com a realização de palestras e pronunciamentos.

Esse primeiro colóquio é a pedra fundamental de uma história que se deseja longeva: pretendemos realizar esse encontro internacional a cada dois anos. Junto com o Dr. Wilson Gonzaga, sabemos que “reconhecer o divino em si, na natureza e no outro é o fundamento do respeito” [ http://www.youtube.com/watch?v=2AdsMw5Zxoo ]. Como presidente desse colóquio agradeço com elevado respeito  a todos os que contribuíram com o seu saber e sua presença, em especial aos que me auxiliaram mais diretamente, contribuindo de alguma forma na realização desse evento, notoriamente: Cristiane Ferraz, Marina Peruzzo, Victor Leão, Francis Lacerda, Carolina Seabra, Paulo Jales, Benoit Le Hir, Valdemir Cruz, Daniela Cunha, Thiago Aquino, Nara Correa e Juliana Engracia. Agradeço igualmente ao “Estúdio Isabel Sandrelly” pela excelência da cobertura fotográfica e  a Pedro Andrade do “Coletivo Jacaré” pelo zeloso registro das palestras e mesas redondas.

Junto à comissão diretora, acreditamos que o elenco de palestras, mesas redondas e apresentações que configuraram esse 1º Colóquio Internacional: Panteísmo, Princípios filosóficos – um renascimento em teologia política demonstrou alguns dos princípios e fundamentos dessa renovada edificação cultural; esperamos contar novamente com as suas contribuições e atuantes participações e dedicações, seu interesse vanguardeiro, para o próximo colóquio, devendo ser agendado para o período de 13 a 15 de novembro de 2015.