Panteísmo

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Uma Definição – Desafio teológico

Uma definição
O Panteísmo – perspectiva essencial

O panteísmo considera o Universo como um todo ‘divino’; assim sendo, o objeto central dessa ciência e metafísica é uma profunda unidade, uma união. Variações na compreensão dessa percepção unitária oferecem diferentes facetas teóricas, o que significa ser o panteísmo uma teologia e filosofia autoral e criativa.

Existe, contudo, uma visão nuclear – o panteísmo:

1. Afirma que o conceito ‘deus’ é metafórico, referindo ao próprio Universo/Cosmos, mais especificamente: à unidade essencial de todas as coisas.

1.1 O posicionamento implica o não reconhecimento do ‘transcendenteísmo’: ao panteísta não se ‘revela’ a existência de uma entidade criadora separada ou ‘transcendente’ ao Cosmos.

2. Cultiva e consagra um sentimento definido como ‘divino’ ao apreciar a beleza, a grandeza e o mistério espantoso da natureza universal.

3. Afirma a virtude e legitimidade do indivíduo frente à experiência existencial, expressando a intenção de celebrar, exaltar e amar a vida e a Natureza.

Reconhece-se que o Universo é divino a partir da realização e vivência de um sentimento sublime, numinoso, ao contemplar a Natureza. Por sua vez, esse deleite estético é fonte e motivo de um processo intuitivo gerador de valores que instituem uma relação mais humilde, jubilosa e reverente para com a Natureza, assim como um impulso, ‘élan’ ou ‘conato’, em busca de uma vivência cada vez mais clara e profunda da unicidade.

Panteísmo como monismo essencial

A intuição panteísta essencial abre para uma linha ou caminho místico que se explicita por intermédio de um eixo de perspectiva metafísica aqui denominado eixo de perspectiva metafísica cosmo-existencial: trata-se da alvorada de um senso poético e radical de unicidade e paradoxalidade em que a consciência fusiona e sincroniza com a existência. A intuição metafísica se experiencia, logo, se conhece e se reconhece, mas permanece indescritível: uma transcendência cósmica onde o estado-de-ser experimenta um sentimento de infinitude.

Quando aqueles que se identificam ‘panteístas’ consideram o Universo divino, a Terra sagrada, o fazem com reverência, respeito, amor e devoção.

Nestas páginas, o panteísmo afirma-se como monismo essencial. Isso, porque não polariza ou reduz a experiência e o entendimento em direções opositivas radicais e exclusivas, como acontece no fisicalismo e no idealismo, posicionamentos que se configuram numa estrutura lógica ‘x ou y’.

O fisicalismo revela ser, por contraste e definição, uma simples ‘polarização’ – e não uma agregação unitária. No fisicalismo entende-se a totalidade do que existe (o ‘pan’ de panteísmo) como a realidade material, sendo a consciência um epifenômeno decorrente e pertencente à substância matéria-energia. Por outro lado, os adeptos da ‘polarização idealista’ acentuam e confirmam a redução acreditando que tudo o que existe seja composto de espirito e consciência, sendo a existência e seus inúmeros aspectos apenas ‘pensamentos’. Portanto o fisicalismo e o idealismo configuram definições entrelaçadas, isto é, um eixo de perspectiva dualista, in totum, sincrônico com o posicionamento neokantiano: transcendente-transcendental.

Neste processo existencial: como se posicionar, como interagir, o que sentir? Como intuir a natureza e o significado existencial dessas dicotomias, igualmente, construtoras de saber e de não-saber, reguladoras de problematizações, potenciais e destinos? Essa relação da consciência com a alteridade, a relação consciência-existência que se testemunha e vivifica na primeira pessoa, exemplifica uma união fenomenal ou uma ruptura abissal?

Como explicitado em artigos e ensaios disponíveis nestas páginas, a perspectiva metafísica escolhida não dicotomiza, caraterizando um ‘essencialismo’, ou monismo essencial, como definido. Trata-se de um encontro e reformulação existencial em que atributos opósitos e complementários se reúnem num evento unitário paradoxal, despolarização negativamente inclusa nos potenciais do saber: tabernáculo pleno e vazio de ser-e-não-ser, ponto de junção-disjunção, essência e mistério.

Esse monismo essencial instaura uma relação  consciência-existência espantosa e combinante que se inscreve num eixo circular de perspectiva metafísica – como uma Fita de Möbius – aqui denominado cosmo-existencial, enquanto que o dualismo e as polarizações fisicalistas e idealistas se inscrevem no eixo de perspectiva metafísica transcendente-transcendental.

Como chegar-se a uma resposta filosófica apenas analisando a logicidade dos ‘conceitos’, contrastando ‘coisas’ reais e hipotéticas, descartando os sentimentos e intuições profundas? Virtuosos ou não, os sentimentos são, com toda evidência, aspectos que determinam as escolhas que se fazem ao enfrentar a existência. Somos uma conjunção de atributos físicos e cogitativos; logo, além de ser um processo de descoberta, a busca filosófica é, paralelamente, um exercício de encontros, processos dialógicos, escolhas e decisões – tudo o que perfaz a realidade existencial se apresenta para ser apreciado e considerado de diversas formas, com diversos métodos.

É nessa alquimia operada no mais profundo do estado-de-ser, que se fecham e se abrem destinos. Onde está a pedra filosofal capaz de curar e reunir o desunido, reposicionar o eixo cosmo-existencial – pedra sobre a qual erigir uma nova vida e civilização?

A filosofia profunda, de raiz, integrada e justamente compreendida, traz no seu bojo as ferramentas que configuram um justo e sóbrio entendimento, começando um discurso centrado, buscando a partir do ‘interior-em-si’, lugar e fundamento onde se encontra a essência que reside na comunhão justamente apreciada da consciência e da existência. Para aproximar-se das coisas, é preciso reconhecê-las justamente, o que se faz descortinando suas delimitações, fronteiras que não se confundem com dimensões estritamente factuais, mas incluindo, igualmente, as configurações gnosiológicas; desta forma, transcendendo o fisicalismo e idealismo. Rastrear os limites radicais, a profundeza das coisas – o êidos, a ‘ideia’ – não é apenas ‘ver’: é contemplar e conhecer-se, uma vez que já existimos no momento em que tudo se revela. Conhecer os limites é visionar e intuir a totalidade nos mistérios ilimitados do estado-de-ser.

Nesse processo intuitivo e metafísico resoluto que desvencilha o estado-de-ser das polarizações dualísticas, surpreende e comove a convergência identificadora e original que se estabelece entre a totalidade da cognição e seus objetos: o mundo mensurável, ‘estado extensivo’ e o ser inteligente e sensível, ‘cogito filosofante’, ajuntam-se num sym-bállein, ou sym-bolon, estado-de-ser integrado, celebrando a vida, espargindo e refletindo universais, como uma mandala; conjunção onde a essência é amor antes de ser razão – a união não se analisa e o Belo não se formula, se intuem.

O estado-de-ser, singular e universal, é a estrutura fundadora, o que existe primeiro, contém em unidade e justapondo em harmonia ser-estado e estado-ser em graus diversos de acuidade, presença e reflexão: essa interatividade, como apriorismo radical, é categoria existencial prima. Não existem objetos da ‘história natural’ fora do campo da consciência historiadora e categorizadora, igualmente natural, a não ser como hipótese. Acontece uma triangulação integrada, de dimensões universais: lugar originário a que se pertence como vivente (Ethos), evidenciando um saber e uma inteligência intuitiva e reflexiva que se demonstra por ser o que se é (Logos): lugar e saber associados e unidos como irmãos em comunhão conjuntiva (Mythos). A dualidade e a polarização cognitiva se transcendem no surgimento desse rebis, feito de lugar existencial e consciência integrados.

Trata-se de uma filosofia fundadora e profunda, num sentido que transcende o racionalismo metodológico e suas infindas divisões: não se exclui nenhuma das funções psíquicas, integrando a totalidade da cognição nos processos investigativos. É filosofia existencial, ética e estética, sendo a referência fundamental o conhecimento singular, juízo final de valor; um intento passível de ser decodificado e compreendido por todos os humanos com sensibilidade e veio poético; filosofia construída para encontrar a melhor forma de significar e experienciar a vida, em si e em coletividade, descrevendo um posicionamento autónomo e renovado em busca de mais sabedoria – eutimia e eudemonismo.

Ser para ser exige pertencer (um ter e ser em união), estabelecendo-se a existência de coordenadas paradoxais irrefutáveis e universais, apesar de encobertas e sub-rogadas nas alegorias, estilos pedagógicos e anuências sociopolíticas conservadoras: existir é acontecer no momento universal, agregando em união o campo do ser e do ter.

Concentrar-se sem desvio no estudo dessa junção metafísica revela um estado-de-ser pleno, um rebis, como uma Fita de Möbius: uma estrutura paradoxal em que a consciência discriminadora e a totalidade do discriminado configuram um símbolo que ajunta as dicotomias em um enlace cujo sentido terminativo é união.

Extrapolações dualistas ou polarizações ditas panteísticas  

Enquanto fundamentado numa perspectiva polarizada, fragmentado em categorias e tendências incompletas que carregam as imponderações inaugurais, só é possível (des)entender o panteísmo em compreensões substitutas e reduzidas.

O essencialismo ou panteísmo monístico e paradoxal diverge do monismo dito ‘neutral’ ou panteísmo dualístico por não reabsorver, acomodar, ou nulificar os opósitos em substâncias polares, inferidas e hipotéticas, mas pondo-os numa relação existencial unitária e impreterível na qual o evento consciência-existência apenas existe e se significa conjuntamente e com reciprocidade, configurando um sistema unitário de opostos que se complementam. Uma evidência não necessita provas: Cosmos, corpo e pensamento configuram uma única circunstância. A evidência exige uma conformação radical que não refreia o despontar de uma auréola agnóstica e poética imanente do mistério leibniziano: afinal, porque algo existe em vez de nada?

Nessa apreciação existencial o sujeito é um estado-de-ser unitário, sendo igualmente visionário e visão. Ditos em termos ‘metafenomenológicos’, o intencionado, no sentido trazido por Brentano, é o que profundamente existe, o que é mais real – neste caso, é claro, o fenômeno é destituído da sua redução idealística, para se apresentar como existencial por excelência.

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