DIALOGANDO COM LUDWIG VON MISES EM BUSCA DO MERCADO LIVRE E DA CIÊNCIA DOS VALORES

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Régis Alain Barbier – barbier-ra@uol.com.br

Dedicação

Dedico esse ensaio à minha inspiradora esposa Isabel e aos meus filhos, Serge, Lorena e Olivier que hoje nasceu – 02-01-2017          

Agradecimentos

Antes de Ludwig Von Mises e da Escola Austríaca de Economia (EAE), é a Henry Marksoud que agradeço. Recém-chegado ao Brasil, perguntei a um conhecido o nome de uma revista em que pudesse me informar melhor sobre a atualidade, cultura e política brasileira. Ele respondeu “revista Veja”. Num quiosque, bem a mostra, estava a revista; mas, por engano, comprei Visão por Veja! Como um diamante no lodo, a verdade estava escondida em retóricas espúrias e ideologias tirânicas. Foi a partir desse evento que ampliei o meu espaço de liberdade e saber; um movimento em crescendo que me levou à leitura dos principais autores da EAE e outros, de diversos campos e dedicação, elencados na seleção da livraria Laissez-Faire de Nova York. Participei do primeiro encontro internacional do Instituto Liberal em Zurique, onde conheci, entre outros congressistas, Ed Clark, então candidato à presidência pelo Partido libertário americano e Murray Rothbard, um dos palestrantes principais.

DIALOGANDO COM LUDWIG VON MISES EM BUSCA DO MERCADO LIVRE E DA CIÊNCIA DOS VALORES

INTRODUÇÃO

DOS TÓPICOS POLÍTICOS E DAS SUAS VOCAÇÕES

DOS TÓPICOS CENTRAL E PERIFÉRICO DA PRAXEOLOGIA

DOS INEVITÁVEIS ENCADEAMENTOS DA METAFÍSICA

A ÉTICA  E ESTÉTICA  DOS VALORES FUNDAMENTAIS

DA PRAXEOLOGIA DAS OPINIÕES

DO LASTRO E DO VALOR FINAL

EXPONDO UM PADRÃO IDEOLÓGICO DE INSPIRAÇÃO WEBERIANA

APONTANDO TABUS

EM CONCLUSÃO

DIALOGANDO COM LUDWIG VON MISES EM BUSCA DO MERCADO LIVRE E DA CIÊNCIA DOS VALORES

“Somos natureza” é o juízo de valor e a perspectiva metafísica mais evidente, universal e difícil de se aceitar quando se acredita que existem, de alguma forma dissociadas, duas esferas na natureza; a do mundo exterior, dos fenômenos físicos, e a do mundo interior, do pensamento e sentimento. A nossa salvação civilizatória demanda o reconhecimento de uma perspectiva metafísica razoável, junto com a instalação dialética e consensual de uma escala de valor universal, com profundas consequências existenciais, teológicas, políticas, econômicas e cientificas.

INTRODUÇÃO

A rigor, o mercado livre não necessita ter a sua estrutura econômica e seus mecanismos operantes reconhecidos e descritos para vigorar; ele é natural de um ambiente político libertário; é esse ambiente em si que, em primeiro lugar, deve ter os seus fundamentos explicitados.

Os aportes miseanos na demonstração da natureza mercadológica da moeda são pioneiros, notadamente, o Teorema da Regressão e o desvendamento das causas políticas da desnaturação da moeda em fidúcia, consequentes inflações com formações de monopólios, deturpações crônicas do mercado e gerações dos ciclos econômicos. Não surpreende que os trabalhos de Ludwig Von Mises (LVM) e da Escola Austríaca de Economia (EAE) motivam fortes, mas infundadas, reações dos que militam a favor dos intervencionismos sociocráticos.

Neste ensaio, aproveito a obra de LVM para destacar opacidades que não são peculiares da EAE, mas amiúdes encontradas na literatura de escopo filosófico; contudo, as inconsistências sob escrutínio são mais significativas neste autor porque embaraçam uma compreensão mais apurada das relações entre os posicionamentos éticos e as realizações humanas, estorvando a elaboração de uma ciência dos valores. As dificuldades semânticas e metafísicas aqui destacadas, embora contradizem algumas opiniões e fundamentos filosóficos de LVM, não minimizam a grandeza das suas contribuições para o justo entendimento dos fenômenos econômicos e da tecnologia monetária como tal.

Constrói os meus apontamentos analisando os escritos de LVM porque ele investiga a ação humana de maneira ampla, filosófica, iniciando com duas pressuposições: que os indivíduos, conscientes do bem comum, são dotados de valores humanistas, além de assumir a atividade econômica como um encadeamento de atos realizadores de prosperidade e orientados para a satisfação e felicidade; isso, contudo, sem especificar como esses indivíduos se identificam, concebem e experienciam as suas inserções no meio onde acontecem e atuam – o que, veremos, poderá pôr em cheque tanto as pressuposições quanto a orientação geral e resultados da atividade econômica.

Quando uma investigação referente à ação humana inclui pressuposições humanistas bem definidas junto com meios econômicos operantes específicos, desta forma levando a resultados avaliados positivos e congruentes em modelos utópicos, mas, não acontecendo tais efeitos na vida real, a razão dos insucessos não será, necessariamente, resultante de uma ignorância relativa aos meios econômicos; a causa dos fracassos poderá estar locada em impedimentos dificultando a assimilação e manifestação, no âmbito da realidade, das pressuposições coordenadas no cenário utópico; o que reporta a uma necessidade de saberes filosóficos em busca de desvendar essas impossibilidades.

Ao estudar coisas econômicas, como a origem da moeda e a qualidade do mercado através da abordagem praxeológica, LVM assume os indivíduos imbuídos de uma premissa comportamental por ele considerada evidente e trivial; a pressuposição descreve, genericamente, os atores sociais em observação como “buscando satisfação, prosperidade, prezando relações sociais cooperadoras e pacíficas”; portanto, assume-se sem maiores explicitações – aliás, negando a necessidade de teorizações – um temperamento apurado e afável como uma ‘coisa em si’.

Na realidade, tais virtudes comportamentais – não resultando de automatismos, mas de conceituações éticas – só podem resultar de intensos aportes e reforços culturais, pedagógicos e políticos; com efeito, o cultivo da paz e do hábito colaborativo resultam de uma sensatez culturalmente elaborada e relativa a um eixo de valor assentado em uma perspectiva metafísica e pareceres estéticos que LVM não descreve e que hoje não vigoram. Em decorrência dessas pressuposições infundadas, o autor assume relações políticas aprimoradas, libertárias, como estruturadoras de ambientes favoráveis, até mesmo essenciais a uma adequada concatenação dos atos econômicos e consequente maior prosperidade, sem, tampouco, explicitar as suas origens, como se essas políticas respeitosas fossem evidentes e incidentais, como o clima.

Embora não oferecendo argumentos que negam que as constituições políticas e atividades econômicas resultam de saberes filosóficos socialmente compartilhados, por sua vez instituídos nas perspectivas metafísicas enraizadas nas culturas, como veremos, LVM desconsidera sumariamente a utilidade da metafísica, embora esteja discursando enquadrado nos seus compassos; estranhamente, nega a importância e dimensão filosófica da estética, embora seja o talento fundamental para determinar escolhas e estabelecer uma ciência dos valores.

De fato, uma ética humanista de harmonia e paz implica, para se afirmar e generalizar, o cultivo de um talento estético favorável e de uma perspectiva metafísica convergente; o que, em nenhum caso, resulta ser algo trivial, mas uma realização cultural portentosa fundamentada em valores definidos e em pareceres filosóficos condizentes; fatores que, conjuntamente e em última análise, regem a ação política e econômica.

Essa busca praxeológica liderada por LVM é contextualizada em ambientes utópicos e teóricos, embora científicos (a utopia como cenário de busca), recorrendo, em paralelo, a referências históricas. Nesse contexto, procuram-se prever as concatenações praxeológicas condicionadas às premissas inaugurais – das valorizações libertárias e hábitos pacíficos e colaborativos. Paralelamente, questionam-se eventos típicos da política e economia de estado, acompanhando as relações lógicas entre retóricas populistas afiançando grandes realizações (os propósitos declarados) e os meios típicos do intervencionismo com os decorrentes e péssimos resultados do ponto de vista da coletividade em geral, em tudo caso muito aquém dos prometidos. Por fim, comparam-se essas manobras sociocráticas com os parâmetros liberistas e paradigmáticos do universo utópico e histórico de referência. Nessas cogitações, construídas em um enredo de resultados previsíveis, evidencia-se, sem margem de dúvida, a evidente adequação de uma forma econômica e política esmerada – hoje totalmente eclipsada e não operando a contente em nenhum lugar conhecido – que deveria vigorar se os indivíduos honrassem e fossem à altura das premissas individuais e sociais graciosamente atribuídas, isto é, se vivessem e atuassem em outras perspectivas filosóficas e metafisicas.

Políticas não são incidentais, superveniências, epifenômenos societários, ou ainda fenômenos naturais; são tributárias de axiologias definidas por líderes e apoiadas em retóricas contundentes quando autoritárias, ou em elaborações filosóficas sabias e processos educativos continuados quando libertárias. Portanto, nesses estudos econômicos – embora anunciados apolíticos e neutrais, livres de valores embutidos – assumem-se além de uma perspectiva metafísica não declarada, uma axiologia política, teoricamente não explicitada como pressuposições segundarias e decorrentes.

Os fatos demonstram que não se deve confundir a noção de neutralidade científica no sentido de idoneidade nas buscas e na aceitação dos resultados, com essa postura cientificista apartada e indiferente, essencialmente deslocada e inadequada ao estudo das coisas humanas, que sejam individuais ou sociais – sendo proposital a ação humana não é indiferente.

Tampouco se justifica evocar essa mesma objetividade neutral para encobrir dificuldades, que sejam por simples credulidade ou por receio de confrontar consensos ou tabus no exame crítico dos parâmetros fundamentais que motivam a ação humana; ainda mais quando esses parâmetros determinam a autoidentidade do estado-de-ser humano, logo, a consciência de si mesmo como indivíduo e das suas relações, integradoras ou não, com o outro e com o que é outro. É a autoidentidade – consciência de si – que mais fortemente determina os comportamentos individuais e sociais, logo, as relações, precipuamente políticas e econômicas.

Querer estudar e compreender, em posicionamentos marginais, dissociados, ‘fora-de-si’, o que é mais profundamente humano e o que mais determina as atitudes e atos (poder escolher as suas identificações) ou renegando as coordenadas que suportam essas escolhas autoidentificadoras e determinadoras das virtudes e dos sentimentos que se expressam frente aos eventos existenciais, assim como dos posicionamentos éticos frente ao que é outro, só poderá gerar resultados dúbios e incompletudes.

A neutralidade científica aqui necessária não é essa reverenciada ‘objetividade cientificista’ que escamota a investigação central dos valores e saberes que mais determinam a qualidade existencial e produtividade da natureza humana; a neutralidade necessária é a independência filosófica do pesquisador frente aos seus próprios condicionamentos culturais e cultismos.

São, justamente, esses fundamentos teóricos ausentes e negados na obra de LVM que permitiriam o estabelecimento de uma ciência dos valores que, caso vigorasse, poderia motivar os decursos econômicos positivamente apreciados, que, com efeito acontecem espontaneamente em ambientes libertários.

O resultado sumarizado da busca de LVM é que espaços colaborativos integrando indivíduos pacíficos e libertários propiciam interações econômicas produtivas, fecundas e geradoras de mais prosperidades de que ambientes fiscalistas e reguladores; o que, para uma eventual realização, demandaria formas de autogovernanças ditas apolíticas (tecnicamente ‘anarquistas’ em uma referência contrastada com o estatismo autoritário), mas melhor dita ‘civítica’, um âmbito decisório participativo e dialógico, onde não haveria lugar para sociocracias burocráticas, lideranças populistas, nacionalistas, étnicas (de sangue), classistas ou outros, nem tampouco palcos para gurus ou führers iluminados. Logo, uma realização tributária de uma outra forma civilizatória que demandaria um assentamento metafísico e estético intensamente humanista e naturalista.

Assim sendo, de acordo com as premissas e métodos investigativos, formas teopolíticas que não se reconhecem são, veladamente, assumidas como geradoras fundamentais de ambientes econômicas que se enaltecem: portanto um saber que não se reconhece, a não ser, parcialmente e em cenários utópicos habitados por sábios, é a causa fundamental de descobertas que não operam nesse meio sectário em que realmente se vive, mas configuram usos e costumes naturais e comuns nos âmbitos libertários.

Denota-se que a investigação da EAE, apesar das retóricas imprudentes e dos embasamentos filosóficos insuficientes para permitir o progresso da causa libertária, resulta, teoricamente, profícua graça às suas premissas e enredamentos em que se condicionam a índole dos agentes, igualmente, especificando-se uma abordagem praxeológica restrita e modulada ao estudo de um segmento periférico do que é a ação humana. Encadeamentos indutivos construídos em pressupostos hipotéticos permite a esse mestre da EAE descrever com louvores como as relações econômicas e políticas poderiam e deveriam se dar, caso o ser humano fosse sensato, libertário e à altura ética das suas referências utópicas; desenvolvimentos potencialmente verossímeis, mas, apenas exequíveis, além dos âmbitos literários e teóricos, quando firmemente fundamentados em uma perspectiva metafísica e virtude estética que LVM renega e encobre comprometendo a congruência e efetividade da obra.

Apesar da opinião miseana, a aplicação da praxeologia – como ciência geral e forma epistemológica que permite compreender a ação humana a partir dos potenciais dos indivíduos – além de inaugurar uma fonte de saber, estabelece, quando plenamente utilizada, uma conexão profunda e criativa entre o que é do indivíduo, como autor e idealizador político, e o que é do mundo; uma ponte.

A qualidade do mercado – que não é apenas um mercado, como coisa ou lugar, mas um estado-de-ser social ativo e voluntário, atual, criativo e mutante com extensões universais – depende da realidade política vigente na sociedade. Uma qualidade que depende do grau de respeito demonstrado pelos indivíduos nas suas relações com o outro e com o que é outro; o que, por sua vez, resulta tributário de uma sabedoria filosófica centrada em processos de identificações; como os indivíduos se identificam nesses referenciais mercadológicos, sociais e universais; como compreendem e valorizam as originações e enlaces entre o que é si mesmo e peculiar frente ao que é outro, alheio e universal, reciprocamente, entre o que é outro e alheio frente a si mesmo e ao que é universal. Tais sabedorias, por sua vez, enraízem em apreciações estéticas e no predomínio da perspectiva metafisica que se favorece e generaliza na cultura.

Barrar e negar a adequação e utilidade do exame filosófico desses fatores determinantes poderia ser uma atitude compreensível para um sociocrata intervencionista cujos assenhoramentos e domínios são dependentes de uma perspectiva autoritária imposta na cultura e inegociável, mas não é admissível nos escritos de quem defende um mercado livre que só pode realmente acontecer em uma perspectiva metafísica e valorização divergente em relação à que hoje vigora no ordenamento civilizacional.

O intervencionismo e protecionismo, a arte do controle e deturpação da moeda em fidúcia, são condutas consequentes e típicas, são meios inerentes à busca de realizações e objetivos finais (sujeitar o mercado e os mercadores em prol a interesses peculiares) construídos em perspectivas e ideias diversas das que suportam o liberismo; por outro lado, o mercado livre não necessita ter a sua estrutura econômica e seus mecanismos operantes reconhecidos e descritos para vigorar, ele a consequência natural de um ambiente político libertário; é esse ambiente em si que, em primeiro lugar, deve ter os seus fundamentos explicitados na tentativa de impulsionar o florescimento desse mercado livre; o que não é possível sem aprofundar o que LVM, erroneamente, descarta e renega.

DOS TÓPICOS POLÍTICOS E DAS SUAS VOCAÇÕES 

A praxeologia investiga e focaliza dois tópicos; um periférico descritor de relações arqueadas entre metas, meios e resultados, e um central referente a atos cognitivos conjugando intuições, formulações filosóficas e ideologias.

As investigações empreendidas por LVM e outros epígonos da EAE resultam ser muito produtivas e inauguram novos saberes, embora acontecem condicionadas a uma aplicação segmentada e periférica da ciência praxeológica, isto é, o estudo da economia e da natureza do mercado de acordo com as premissas assumidas em relação aos indivíduos e ao método de busca triangulando concatenações definidas entre metas, meios e resultados; o foco epistemológico é a ação humana estudada com empatia, observações históricas e modelos teóricos de contextualização como utopias científicas.

Portanto, em LVM, o enredo teórico é compósito e razoável, atinente ao que deveria ser a natureza humana, mas, não reflete em nenhuma hipótese as premissas globais postas em ação pelas ‘massas’ (magno conjunto de indivíduos atuais e reais) que, passam na história como caravanas em desertos, amiúde ideologizadas e lideradas por poderosos  lobos (nos pareceres de Hobbes), vociferando e aclamando, com aparente entusiasmo, a formação de novos reichs, califados, nacionalismos sociocratas ou outras configurações estatais, coletivistas e teocráticas, arquitetadas por ‘idealistas’ timoneiros e pregadores de absurdezas filosóficas.

É essa a real e concreta situação societária que obriga LVM, para poder afirmar essa justa praxe e arquitetar esse belo e livre mercado, a recorrer a espaços utópicos, ou históricos, em todo caso locados “fora das muralhas da poderosa Roma” para utilizar uma expressão virgiliana; espaço-tempos bucólicos e românticos onde pastores e sociedades ainda não rigorosamente superestratificadas, quase míticas, convivem com moedas verdadeiras que refletem a luz da inteligência natural no brilho solar e lunar do ouro e da prata. Uma construção que lembra a doutrina mística e filosófica, supostamente, formulada no sVI a.C. por LaoTse e que evoca um processo espontâneo, natural e benéfico, que produz todas as coisas, pelo qual todas elas se transformam e com o qual hão que harmonizar-se em prol do equilíbrio vital e integrado.

Esses espaços, hoje imaginários, em parte históricos, são potencialmente reais, existem em algum lugar do espaço-tempo; existiram, esperançosamente, tenuemente esbouçados, na era pré-socrática e pagã; portanto, de alguma forma, surgiram através de praxes sustentadas em perspectivas metafísicas jônicas e fundamentados em evidências estéticas, etológicas e éticas.

Esse saber filosófico, embora negado, subjaz aos métodos e resultados enunciados pela EAE mas tem as suas coordenadas simplesmente descartadas, desta forma protelando-se um pouco mais a possibilidade de delimitar uma ciência dos valores, igualmente perdida, que seria, caso equacionada a única ciência que poderia impulsionar um ‘reencantamento’ do mundo (desfazendo o ‘desencanto’ weberiano), ou melhor, da cultura, em busca de vida real, felicidade e prosperidade.

Aquilo que se perde necessita ser delimitado e conceitualizado, para ser reencontrado; notadamente, o que neste caso se perdeu: o ofuscamento cultural da ‘luz natural da razão’, geradora espontânea de valores vitais, universais e naturais, hoje utópicos.

As praxes econômicas típicas de culturas e sociedade livres podem ser teoricamente revisitadas em modelos complexos e justaposições diacrônicas, comparando os meios e ambientes típicos do liberismo, hoje basicamente utópicos, investigados através da praxeologia (como modulada na aplicação miseana, podendo ser denominada praxeologia periférica descritiva) com os meios hoje globalizados e vigentes da cibernetologia e do protecionismo. As escolhas e os atos que, em primeiro lugar, permitem imaginar e pensar esse espaço libertário, hoje substituído pelo seu avesso, integram uma ciência dos valores que ainda necessita ser delimitada para, eventualmente, operar; uma ciência que cujas bases poderão ser (re)encontradas e observadas em praxes que acontecem em tópicos diversos dos âmbitos periféricos abrangidos pela praxeologia descritiva da ciência econômica.

Certamente, a praxeologia é a ciência e o método que estuda a ação humana num sentido genérico, notadamente, o que está sendo realizado, atuado, de que forma e com que resultados; os atos e suas consequências configuram o foco central dessa investigação; o que não limite a utilidade dessa ciência ao tópico objetivo da experiência concerta.

Outros atos e movimentos, descritos e postos em ação por intermédio de praxes, infelizmente negados por LVM, acontecem, em primeiro lugar, entre o que se intui esteticamente e o que se formula poeticamente para, então, prosar em conceitos mais simples que, por sua vez, tornam-se doutrinas ou ideologias políticas que movimentam as massas que, como as marés caudalosas que esculpem os litorais, modulam as cidades e mercados; tudo, igualmente, de acordo com ‘leis’ que regem outros segmentos inexplorados da praxeologia que é a ciência geral da ação humana e não apenas dos atos que conectam metas declaradas, meios e resultados.

Portanto a praxeologia pode investigar ao menos dois tópicos; um periférico descritor de relações arqueadas entre metas, meios e resultados, e um central referente a atos cognitivos conjugando intuições, formulações filosóficas e ideologias.

LVM não opera em busca da definição dessa ciência dos valores – que só pode ser a fonte real da paz, liberdade e prosperidade – por três possíveis razões: 1) ele, como veremos, não transcende, ao menos retoricamente se não de fato, a perspectiva batismal idealística da sua cultura de origem; por isso, 2) não conceitua, tampouco teoriza, a possibilidade de se estabelecer uma ciência dos valores, por necessidade, fundamentada em apreciações metafísicas e estéticas; 3) pragmaticamente, ele comprova, com acerto, poder construir uma retórica convincente que permite evitar discussões acaloradas relativas a motivações éticas, estéticas e valores atinentes (teleológicos e políticos), para ganhar o caso: auxiliando a reconhecer que, do ponto de vista econômico, os meios específicos, pacíficos e humanistas típicos do laissez-faire e liberismo, são os que permitem as mais razoáveis iniciativas, investimentos e alocações de recursos– gerando mais prosperidade e satisfação de que políticas restritivas, controladoras e idealísticas.

A praxeologia não é uma função biofísica, psicossomática, alguma forma de psicomotricidade nativa, tampouco é um lugar teórico, ou, apenas, um método científico. Ela é um campo vasto e atuante de saber, algo dado a conhecer, é atitude, é expressão, revela preferências, ideias e sentimentos, configurando um mercado de oferta e demanda que afirma e denota praxes cujas riquezas e diversidades honram e confirmam a produtividade e adequação do estudo. É evidente que a ação humana, orientada no sentido de realizar fins escolhidos, anunciados ou pressupostos, dedicada a realizações econômicas ou outras, implica o envolvimento da totalidade do que é especificamente humano: consciência, cosmovisão, inteligência, congruidade, ademais das interatividades contextualizadas dos sujeitos atuantes.

Os dados necessários para se compreender os agentes e avaliar os meios que utilizam em buscas dos seus fins são complexos, tributários de um leque de observações: fatuais, atuais e históricas, assim como de dados oriundos da introspeção considerando motivações, aspetos psicológicos, filosóficos, metafísicos, estéticos e éticos.

DOS TÓPICOS CENTRAL E PERIFÉRICO DA PRAXEOLOGIA

É a praxeologia que, ao longo da vida, ensina a dar valor ao essencial.

Obviamente, embora desenfatizado, o fato é que se a praxeologia, como ciência e método aplicados e operados pela EAE – notoriamente e com pioneirismo – se propõe perscrutar a inteligência de praxes amplas, voluntárias e conscientes, em busca de realizar um lugar existencial denominado ‘mercado’, isso significa e sugere que essa ciência abrangente e geral não é específica e apenas útil para examinar um único segmento de atuação restrito e periférico indo das metas declaradas aos resultados passando pelo estudo dos meios com o fim de observar o grau de sucesso e liberdade dos mercados.

Observações e métodos praxeológicos de procedimentos restritos podem ser agregados à realização de outros estudos e  como os da cibernetologia (do grego kubernétikê) que é antagônica às abordagens libertárias – cibernética que é ciência da regulação, do estudo comparativo de sistemas e mecanismos automáticos de controles, ‘arte’ de pilotar ou de governar; estudo dos meios políticos de governança em busca de um mercado dominado – e a cibernetologia moderna tem se utilizado com proveito e sucesso das descobertas enunciadas pela EAE. A complexidade dessa ciência atende e serve bem a complexidade do caso em geral, a ação humana; seja de um ponto de vista econômico ou de outro.

Exemplificando a complexidade de uma busca: a moeda é originalmente um produto natural e uma criação humana; um meio de troca; um objeto de grande aceitação, ou liquidez; um produto de valor subjetivo, marginal, ancorado a critérios utilitários e estéticos (como no caso do ouro, inicialmente cobiçado pela sua beleza solar, plasticidade e uso artístico), assim como, não sendo fidúcia, um grandioso avanço civilizacional e cultural, entre outros aspetos.

Com alguma atenção, pode se denotar, usando-se desta exemplificação ampla, que a riqueza e eficiência da compreensão praxeológica só pode frutificar e produzir mais conhecimento, equacionando, do ponto de vista metodológico, enlaces atuantes em outros níveis, ocultados e pouco apreciados por LVM.

O foco investigativo geral da praxeologia configura uma triangulação semelhante à que  acontece ao contemplar um arco-íris; estabelece-se uma ponte entre a apreciação dos dados 1) fenomenológicos do sujeito, como o exame dos valores marginais, estéticos ou metafísicos referentes às suas escolhas, 2) objetivos, da experiência, como notificar a abundância ou escassez de objetos e materiais cobiçados ou fontes de saberes e 3) das atuações propriamente ditas; movimentos, por si só complexos nos seus enraizamentos, implicando aspetos dialéticos, consensuais, culturais, históricos e mercadológicos.

Portanto, o arco de saber e a movimentação que referem à investigação e criação do produto magno da economia, o ‘mercado’ como acima definido (estado-de-ser social ativo e voluntário, atual, produtivo, criativo e mutante), integra categorias amplas e imprescindíveis em diversos níveis e tópicos de atuação.

Esse arco de saber nutre o cogito de informações e esclarecimentos fundamentais e necessários a uma justa apreensão e compreensão das ações especificamente humanas, segmentando-se em diversos níveis ou categorias: 1) tomada de consciência; 2) anseios em busca de sentidos; 3) estabelecimento de valores; 4) motivações resultantes; 5) afirmações de projetos; 6) atos decorrentes 7) e resultados que nunca são finais – recomeçando a busca assim compassada. Embora, fisiologicamente, desta forma alinhada, os níveis elencados nesse arco praxeológico de saber estão em ação sincrônica e constante, revisitados, sempre atuantes e reavaliados, funcionando em um círculo atemporal.

Está claro que o ser humano que age objetivamente é idêntico ao que age subjetivamente, idêntico ao que valoriza a si mesmo assim como todas as coisas que gravitam na orbita dos seus interesses, é, igualmente, o mesmo que se identifica com valores universais e/ou culturais, é o mesmo que se importa, ou não, com ele mesmo e seu destino, com os demais e seus contextos existenciais, ecológicos; é o mesmo que se espanta, emociona, motiva, exercita virtudes ou vícios, sabedoria ou ignorância.

Como um chafariz ou fonte profusa que dessedente e sacia muitas aves, a totalidade desses aportes, todos definidores de saberes e conhecimentos fundamentais para a construção e previsão de todas as hipóteses, teses, antíteses e anteses culturais, não necessitam sempre – para demonstrar aquilo que pesquisas específicas demandam – serem trazidos no foco imediato e crucial das considerações e razoabilidades.

Nos escritos dos diversos autores interessados em ciências sociais, como Max Weber, e economia, como LVM, é comum considera-se, dos níveis e elementos categoriais acima elencados, apenas os de 5 a 7, descartando os de 1 a 4 por estarem mesclados a axiologias consideradas avessas a arrazoamentos e abordagens cientificistas; o que configura um não senso.

Todos esses níveis e categorias de atuações – centrais ou periféricos – integram a experiência dos indivíduos e são passiveis de apresentarem consistências e congruidades, isto é, razoabilidades referentes a coisas universais ou culturais, até mesmo, permitir, com acertos significativos e metrificáveis, previsões e modulações de eventos enraizados em conceitos e resultando em valores profundos, dito ‘finais’.

A ação humana apta a ser praxiologicamente examinada é muito mais de que o estudo de atos operando intenções definidas na forma de projetos até as suas realizações concretas intermediadas pela escolha de meios e recursos específicos; atos que serão considerados validos ou não, em função dos seus sucessos ou insucessos avaliados de acordo com as intenções inicialmente declaradas.

A ação humana é, globalmente, sujeita a estudos e avaliações profundas, inclusive dos níveis acima elencados de 1 a 4 – estudos validos e razoáveis, que sejam empreendidos através dos métodos da praxeologia ou de outras ciências e métodos agregados, como psicologia, filosofia e outros.

Exemplifico: alianças ideológicas, realizações comuns que acontecem amiúdas na ‘esfera do cogito’, são ações tipicamente humanas, cujas consequências práticas são altamente significativas e dinâmicas, merecendo cuidadosa atenção de ordem praxeológica. Estudos, precisamente, focados nas definições das ideações metafísicas geradoras de decursos políticos ou teológicos (os projetos); na observação de ritos e movimentos culturais, dos cultos, manobras de conversão, produção literária, campanhas e mídias (os meios); na apreciação dos efeitos como instituição de partidos políticos, igrejas, associações e frações, eventuais formações de quadrilhas, seitas e atitudes decorrentes (resultados). Tais estudos, possíveis resultados confirmados e previstos, são empreendidos por intermédio de uma investigação praxeológica aqui dita central.

Embora almejando compreender eventos societários e situações econômicas como resultantes de atuações isoladas ou conjuntas de agentes sociais – lastimando eventuais escolhas levando a penúria, conflitos e guerras – surpreende que se escolhem examinar os fatos humanos e societários observando apenas as relações ocorrendo de 5 a 7, isto é, arqueadas entre as declarações formais dos projetos ou propostas, os meios e recursos utilizados em busca de eventuais sucessos ou fracassos.

O que, nessa redução, não está sendo devidamente examinado, é a evidencia que o indivíduo que age é antes de tudo um indivíduo valorizador e que os valores, instâncias operantes mais potentes e rigorosas, não emanam ou originam espontaneamente, de modo imprevisível, como surpresas gratas ou infelizes, nos decursos das ações, comportamentos ou nos ambientes – ideologias são construídas e operadas com sucesso para gerar valores específicos.

Na sua aplicação miseana, periférica, a praxeologia induz a compreender os modus operandis aptos a gerar projetos eficazes de acordo com um ponto de vista idealizado e teórico, mas não ajuda a gerar o gosto, o saber apto a transformar essas praxes libertárias em necessidade, isto é, em ética universalmente evidente; por isso mesmo, a compreensão utilitarista, geralmente aceita e reconhecida de que “o habito colaborativo e pacifico fornece um âmbito societário mais adequado para prosperar”, não consegue barrar a progressiva e aparentemente inexorável caminhada da humanidade ‘desencantada’ em rumo a uma sociocracia engessada, burocratizada e operada por poucos lobos e muito carneiros, ‘recurso humanos’ objetificados como peças de engrenagens. Uma praxe neutral, descritiva, que não pode, não sabe ou não quer, estudar a formação e estrutura dos valores que direcionam o mercado para a prosperidade e a paz ou para a ruína e a guerra não pode atuar como instrumento fundamental de mudanças.

Sem uma metodologia e teorização apta a descrever e enunciar com retórica convincente uma escala de valor universal posta acima das escalas culturais, a premissa utilitarista e neutral reporta a praxes rasas em que indivíduos resultam estar cientes de que aberturas e liberdades setorizadas de acordo com valorizações  reservadas – apenas para eles, suas famílias, grupos, classes, partidários ou correligionários – são mais eficazes e propícias; implicando ser, para eles, a cibernetologia um enquadramento político mais proveitoso.

No contexto societário hoje globalizado, o que se observa é que o utilitarismo citadino que move os humanos em busca de prosperidade parece orientá-los no sentido de galgar cargos e posições públicas, buscando abrigo por baixo das asas institucionais dos estados – ambientes sociais de inscrição voluntaria, embora mediante concursos ou indicações, quase unanimemente, reconhecidos como adequados para a realização de objetivos e desejos econômicos metrificados para um melhor aproveitamento e uso da inflação.

Com a praxeologia como aplicada pela EAE, podemos aprender o que, naturalmente, faríamos com adequação em condição de liberdade, embora sem saber como. Mas, a praxeologia periférica, descritiva e neutral, não permite a compreensão genésica dos âmbitos libertários onde podem acontecer essas praxes de sucesso – com efeito, elas só acontecem em condições sincrônicas com um âmbito libertário que LVM sabe imaginar, embora sem saber como acontece, ainda menos promover – o que seria o investimento econômico magno.

O conhecimento intelectual dos princípios da economia desvendados pela aplicação praxeológica operada pela EAE, as razões da razão, não curam as ignorâncias, desorientações ou vícios da inteligência estética, ou sensível. Uma ciência dos valores precisa enunciar, em primeira instância, a sua razoabilidade fundamental para instigar o engajamento da natureza humana numa boa direção política e econômica, semeadora de intercâmbios prósperos, evitando a penúria.

O embate civilizatório não acontece apenas entre os astutos e os ingênuos, os corruptos e os honestos, mas, principalmente, entre os que ousam pensar e agir com coragem para afirmar os valores reais, tanto os lastros sensíveis da razão quanto das moedas, contra os que optam por evocar ideias sem chão, opiniões e atos sem valores e moedas sem lastro, fidúcias.

O embate acontece entre os que se limitam, como se fossem jornalistas neutrais de mídias licenciadas, a comentar as relações entre intenções declaradas e resultados práticos, sem tirar conclusões éticas, e os que compreendem e intuem que uma ciência dos valores existe, que é justa e necessária e que deve ser enunciada, apesar das opiniões de sociólogos que não sabem ou não querem apreciar e ajuizar os valores geradores de paz e prosperidade. Deverá a sabedoria, mais uma vez, chegar atrasada no banquete da vida?

DOS INEVITÁVEIS ENCADEAMENTOS DA METAFÍSICA 

Ser identidade universal é a experimentação fundamental do ato existencial; é essência e substância que não se observa, mas que se sente e se vive; é ser o que se é: um estado-de-ser humano autopoiético, agregado existencial inelidível de valores e lastros.

O desconhecimento fundamental de LVM é acreditar que o encontro com uma aporia de natureza metafísica deságua em algo inútil do ponto de vista da ação, impossível de ser administrado razoavelmente, ou algo, necessariamente, gerador de conflitos. O que é falso; esse confronte magno, hoje reservados aos teólogos e hermeneutas, mas na antiguidade aberto ao debate filosófico, é a oportunidade e o momento para escolher a identidade que define a natureza gnosiológica do estado-de-ser, as virtudes e destinos societários que correspondem.

De fato, existem outras maneiras de se lidar com aporias possivelmente finais, de que aguardar conformado a chegada do apocalipse, incrusta-las em aureolas fideístas e mitificações, ou ainda promover evasões intelectuais e relativísticas, considerando-as como verdades parciais integrando uma verdade total, ultimamente incógnita e em formulação continuada, pressupondo passatempos dialéticos e consensuais agregando interessantes pontos de vista – não negando o valor dos recursos habermasianos da ação comunicativa para instâncias menos radicais.

Cooptado pelo dualismo kantiano ou neokantiano, influenciado pelas suas tradições, LVM não reconhece, ou percebe, a importância extreme e crucial de se colocar a administração do definidor magno e princípio fundamental da ação humana, a metafísica dos dados finais, no arco das escolhas e das praxes, estabelecendo um projeto existencial razoável.

Na primeira parte da publicação em língua portuguesa do tratado Ação Humana; capítulo 01 – O Agente Humano; subcapítulo 03 – Ação Humana como um dado irredutível; é dito:

“O monismo ensina que existe apenas uma substância básica; o dualismo diz que existem duas; o pluralismo, que existem muitas. Não tem sentido discutir tais questões. São meras disputas metafísicas insolúveis. O presente estado do nosso conhecimento não nos proporciona os meios de resolvê-las com uma explicação que um homem razoável considerasse satisfatória”.

Afirmar que não existe razões para discutir esses problemas é leviano e antifilosófico; é justamente a falta de uma administração razoável desses enunciados metafísicos que, nos enraizamentos mais profundos, impedem a formação e estabelecimento de uma ciência apta a ponderar a natureza e valor das coisas universais frente aos valores das tradições e culturas e examinar a gênese do libertarianismo e do autoritarismo.

É a carência dessa ciência dramaticamente ofuscada por esses posicionamentos omissos, logo, conservadores e de alguma forma retrógrados, que permite a predominância de políticas e abordagens teopolíticas irracionais e vulgares, que, em primeiro lugar, determinam os enquadramentos societários onde o mercado deverá se adaptar.

É a apreciação desses valores últimos, operada com pareceres sensatos ou absurdos, que gera e produz a índole geral dos ambientes onde se estabelecem sociedades, culturas e civilizações; que sejam esses ambientes libertários, imaginários ou históricos, objetos desses estudos praxeológicos da EAE, ou esses ambientes reais, atuais e sociocratas onde reina a praxe da cibernetologia.

Mas adiante, no mesmo parágrafo é escrito:

“A razão e experiência nos mostrem dois mundos diferentes (no original: two separate realms); o mundo exterior dos fenômenos físicos, químicos e fisiológicos e o mundo interior do pensamento, do sentimento, do julgamento de valor e da ação propositada. Até onde sabemos hoje, nenhuma ponte liga esses dois mundos”.

Trata-se de uma afirmação espantosa, claramente opinativa, fideísta, evidenciando um dualismo estruturado e não desafiado, fortemente incrustado além do cogito. Efetivamente, evidencia-se neste autor uma aliança e escolha metafísica batismal que, em primeiro lugar, dificulta a realização plena dos potenciais da praxeologia que estabelece uma ponte evidente entre os eventos fenomênicos, do sujeito e as coisas do mundo, dos objetos.

A praxeologia operada a partir de um dualismo radical não pode ir além de um estudo periférico, descritível e horizontal, examinando as correlações entre comunicados, recursos operacionais e resultados constatados; sendo os tabus, afirmações metafísicas, elucubrações dialéticas e contrastantes parcialmente compreendidas em dimensões utópicas e dúbia. Esse enquadramento periférico reduze as evidências praxeológicas a narrativas saudosistas, teóricas e preditivas, mas incapazes de reintroduzir o valor liberdade no mercado que continua preso e enlaçado nas garras dos que enxergam o mundo como um reino ou objeto a ser dominado, liderado e possuído, em vez de reconhece-lo como um estado-de-ser essencial, atuante e vital, que reúne e concatena o que profundamente se pensa ao que se faz.

Até provar em contrário – ficando o ônus da prova aos partidários – não existem duas esferas, mundos, reinos ou res; existe simplesmente, depois de passar todas as navalhas, um estado-de-ser unitário composto de dois atributos; uma afirmação final, racional, humanista e baseada em evidência. Postular duas esferas, mundos, reinos ou res, configura um abuso sofístico da razão e uma tese idealística – este é, sim, um parecer crítico que se impõe, justamente, por evidencia simples: cada indivíduo, cada um dos humanos presente, passado ou futuro, comprova, comprovou e comprovará estar experimentando, praxiologicamente, dois atributos reunidos e inseparáveis embora geradores da totalidade das distinções. É impossível experimentar ou conhecer dois hipotéticos mundos como coisas verdadeiras, reais e separadas; somos essa ponte que LVM não vê, evidente e necessária, até provar em contrário.

A ponte, embora indescritível na sua essência, é óbvia, esteticamente apreciada, viva e vital, livremente transitada pela inteligência sensível; ela é evidente por realizar a identidade unitária da humanidade que, igualmente, sincronicamente, percebe, sente, pensa e age numa praxe integrada e criativa, geradora de coisas econômicas e políticas que realizam e sustentam o espaço societário e ético onde se vive, com prazer ou desprazer. Caminhos efetivos e decisórios, humanos, especificamente humanos, que justificam os bons e maus fins culturais, societários e civilizatórios, mas que não se compreendem e reconhecem em parâmetros sectários – que sejam os da sociologia weberiana, da EAE, da antropologia cultural, do culturalismo, da teologia ou outros.

Se essa ponte de lucidez, que por necessidade existe enquanto existir algo sujeito a discriminação, parece hoje invisível e oculta, é porque ela se encontra ainda submersa nas brumas dos ofuscamentos metafísicos típicos do Medievo. Funcional, essa ponte conecta a luz natural da razão, hoje vagando perdida além das fronteiras metafísicas da sensatez, com o reino das evidencias sensíveis onde o dado inaugural, fundador, clama e brada nas quatro direções, que somos natureza universal feita de consciência e de coisas compartilhando a dinâmica e o ato absoluto e universal de existir.

A ÉTICA E ESTÉTICA DOS VALORES FUNDAMENTAIS  

O grande valor e consagração da estética é a evidência fenomênica apresentada pela inteligência sensível e intuitiva da majestosa e integradora união do cogito e do mundo; uma unicidade de onde surge um sentimento numinoso de integração e paz capaz de assentar o indivíduo numa perspectiva metafísica universal que é o fundamento da liberdade e do respeito. 

Na obra, versão portuguesa, Teoria e História; capítulo 3; subcapítulo 9 intitulado ‘Sobre os valores estéticos’, é escrito:

“Assim, praticamente qualquer controvérsia acerca das regras de conduta se refere aos meios, e não aos fins; portanto, é possível avaliar estas regras a partir do ponto de vista da sua adequação ao funcionamento pacífico da sociedade”. Nos parágrafos seguintes: “Não há um padrão a através do qual se possa determinar que um veredito que diga ‘isso me agrada’ seja mais correto que outro que diga ‘isso não me agrada’ (…). “Não existem normas de beleza, e não existe uma disciplina normativa da estética”.

A razão ética instituída em valores é transmutada em algo incidental em prol a um moralismo utilitarista; a estética é, surpreendentemente, aniquilada, reduzida a uma apreciação da arte e da literatura, a uma coisa cultural.

“O gosto é inato apenas para alguns poucos; os outros devem cultivar a sua aptidão para essa apreciação. Existem muitas coisas que um homem deve aprender e viver para se tornar um connoisseur”. Mas, “(…) seus julgamentos continuaram pessoais subjetivos”. (…) “Apenas pedantes afetados podem conceber a ideia de que existem normas absolutas que dizem o que é belo e o que não é. Eles tentam extrair de obras do passado um código de regras que, segundo a sua própria fantasia, os escritores e artistas do futuro devem obedecer. O gênio, no entanto, não colabora com o expert”.

Como é possível, não reconhecer que um parecer estético não é apenas uma crítica cultural a ser publicada em colunas sociais dedicada à arte? Como é possível não compreender que pareceres estéticos, apreciações de valores, jamais poderão ser padrões, normas ou leis? Como não perceber que um parecer estético não é uma fantasia, tampouco uma opinião?

Realizar escolhas e pareceres estéticos não é hipostasiar; não é transformar uma relação lógica numa substância, não é fazer de uma abstração uma realidade. Estabelecer um parecer estético é apontar um acontecimento, é desvelar uma evidencia sensível, atual e presente – é afirmar um reconhecimento e um valor. Um parecer estético é um evento que revela a natureza do real, cujos enraizamentos transcendem os potenciais da lógica, por intermédio de uma imagem ou expressividade – seja poesia, prosa ou arte – apta a comunicar e sublinhar a percepção indubitável e evidente dessa natureza, sem a necessidade de formular opiniões.

Se “o gênio não colabora com o expert” não é porque, essencialmente, ele não se preocupa com opiniões ou normas, é porque ele, de imediato, percebe, sente e ressente o belo e o grandioso ao observar e reconhecer a unicidade e completude da natureza. A competência estética reconhece a unicidade natural do estado-de-ser, elaborando um monismo do ponto de vista metafísico; o esteta, sem normas, instrumentos ou guias, transita por essa ponte vital que não se pode negar, embora sem saber como descrever suas arquiteturas inerentes.

O idealista, esteticamente inepto, não intui essa conexão unitária, nega essa ponte e justifica a negação por não ser capaz de conhecer a sua estrutura; não transita por ela preferindo renegar as virtudes cardeais para advogar os decursos da absurdez, do fideísmo e das fidúcias, do dualismo metafísico que aniquila o mercado livre que só pode decorrer de um bom senso humanista, justo e corajoso, respeitoso e prudente, onde é possível, espontaneamente, operar a praxe libertária que condiz com uma prosperidade harmoniosa.

Da estética profunda e filosófica, decorre uma ética que não têm usos para normas, uma ética razoável, responsável, respeitosa, pacífica e colaborativa, logo uma ética libertaria. Aqui está uma distinção fundamental que não faz parte dos compassos ideológicos e metafísicos das escolas de economia e que não foi discriminado por LVM para quem a estética é apenas uma coisa subjetiva reservada a conaisseurs, geradora possível de coleções e museus, para quem a paz não parece ser uma virtude ativa decorrente de uma perspectiva metafísica e justa identificação, mas um fundamente societário, igualmente, eventual e trivial, útil para o advento da prosperidade; para quem a liberdade não é um ato afirmando vontade e razão ética, mas algo como um recurso incidental, como uma brisa.

Não existem duas esferas, mundos, reinos ou res; o que existe e um estado-de-ser, um indivíduo reunindo na mesma identidade esses dois lados da existência, os fenômenos conscientizadores e qualificadores do cogito junto com as coisas extensivas que se quantificam e conscientizam. Não há como dissociar esses atributos do estado-de-ser universal, ainda mais reconhecendo-se a capacidade criadora e autopoiética da natureza humana.

Reconhecer a si mesmo como contexto existencial, logo, expressão universal, por isso mesmo, enxergar-se como um valoroso estado-de-ser digno, ecumênico, criativo e soberano, não objetifica frente a nenhum outro critério de valor ou outra dimensão, apenas caracteriza uma perspectiva metafísica basilar, prudente e virtuosa, respeitadora dos limites do conhecimento e da razão natural, que ainda precisa renascer das cinzas dos impérios e medievos.

Valores universais não se confundem com valores cultuais; valores eco humanistas não se confundem com valores clânicos; os decursos da razoabilidade onde se reconhecem que a dimensão universal produz todas as coisas que se relacionam e se harmonizam em prol do equilíbrio vital, não se confundem com visões sectárias que dicotomizam a natureza num corpo rejeitado como um lastro sem uso afundado num porão e num espírito como uma instância de valor além da vida e da razão natural, exclusivamente administrado por seres especiais, diversos dos comuns; ditadores de normas de igrejas ou estados, criadores de sistemas cibernéticos políticos e econômicos, administrando espaços e lugares sem vida, parasitando, denegrindo e mortificando a sociedade dos humanos.

O grande valor e consagração da estética é a evidência fenomênica dada pela inteligência sensível e intuitiva da majestosa e integradora união do cogito e do mundo de onde surge um sentimento numinoso de integração e paz, capaz de assentar o indivíduo numa perspectiva metafísica universal, igualmente parmedineana e heraclitieana, infinita, com tremendas consequências práticas.

Eis a perspectiva metafisica que, como o ouro, uma moeda verdadeira, não precisa comprovar seu lastro, identificando em si mesmo (idem et idem) os valores sensíveis e os da razão, os do mundo e os do cogito. Na sua plena consciência, o estado-de-ser humano se reconhece como consciência universal, decorrendo dessa compreensão, saber e ciência, as ideias aptas a constituir uma cultura convergente com a natureza onde justamente se poderá honrar as grandezas operantes desvendadas pela praxeologia justamente apreciada.

Se existe uma ciência geradora de valores aptos a motivar os humanos, com o vigor e a força necessária, para progredir destemidamente em busca dos seus objetivos, será uma ciência da identidade, das identificações e do gênio identificador que bem poderia merecer um nome – talvez ‘Idemologia’; de ‘idem et idem’; a mesma identidade; e de demo: gênio: a ciência de Idemologia – ciência da identidade e do gênio.

Efetivamente, o que é fundamental e essencial para determinar os valores de um indivíduo, seu gênio e suas ações, é, antes de tudo, a sua noção de identidade, suas identificações e as ações identificadoras correspondentes – precipuamente o modo de se reconhecer e apreciar, examinando a sua relação identitária, valor próprio e inerente, frente ao que é universal e transcendente.

O pensador profundo, o contemplativo, o meditante, o filósofo, isto é, o ser humano propriamente dito, sabe que na sua dimensão existencial a identificação mais fundamental é a que se estabelece ao contemplar e apreciar as conexões entre a consciência e seus objetos, ou seja, entre as ordens do cogito e da natureza. Essa apreciação constitui, igualmente, o definidor existencial e cultural mais efetivo; é o ultima ratio, o argumento inaugural e final onde se erguem as teleologias fundadora de civilizações. Assim sendo, o discernimento identitário mais básico e potente reporta a uma distinção de ordem metafísica.

Em Teoria e História; capítulo 4; A negação da avaliação; no segundo parágrafo L. V. Mises escreve: “Afirmar que os julgamentos de valor são fatos incontestáveis significa dizer que a mente humana é incapaz de identificar a sua origem naqueles fatos e acontecimentos com os quais lidam as ciências naturais”; a utilização da palavra ‘identificar’ é dúbia.

De fato, não há como afunilar uma relação identificando objetivamente alguma conexão substancial entre a consciência e a coisa que se conscientize, ou entre a ideia e algum evento – trata-se de um problema metafisico central ao redor do qual teorias filosóficas foram construídas, que sejam spinozianas ou kantiana.

Nesses fenômenos, correlacionando ideias e objetos, não acontecem, até provar em contrário, acoplamentos que reduzem o que é cognitivo ao que é objetivo; não se estabelecem conexões fusionais geradoras de alguma nova substância significante, ou novo atributo, proporcionando uma nova fonte de saber metrificável em novas expansões universais; parece óbvio, que nesta investigação, uma eventual fusão não se reconheceria como saber positivo porque nulificaria o espaço em que o saber se discrimina.

Contudo, o cogito, como totalidade ou atributo universal, pode ser descrito como integrando um todo, perfazendo um conjunto polarizado e complementário com seus objetos naturais correspondentes, configurando-se uma única esfera universal – instalando-se um processo identitário – como um símbolo existencial (de gr. súmbolon); um emparelhamento cósmico vivo e atuante, o único cosmos de fato, reunido a totalidade dos signos e dos significados em um estado-de-ser, implicando paradoxalidade em observações radicais.

Na outra perspectiva metafísica, imaginam-se os pareceres cognitivos, ‘o cogito’, como uma substância outra, diversa dos seus objetos e autônoma, estabelecendo-se se uma desagregação imaginária e idealística destituída de vitalidade e valor de verdade; de um lado objetos, corpos, ossos e carne, do outro as conscientizações e os pareceres cognitivos do estado-de-ser transformados em espirito do além-morte em relações facultativas e incidentais com suas referências. Essa é a idealização infundada, a fidúncia que serve de matriz para a rejeição apriorística de uma ciência dos valores; uma ciência que nega em primeira instância essa desagregação como na economia se nega o valor intrínseco das fidúcias voláteis destituídas de lastros e de fundos.

As duas perspectivas equacionam decorrências e compatibilidades culturais divergentes; teleologias, epistemologias, metodologias e aporias diversas. São esses fundamentos filosóficos como suas consequências teológicas e políticas que necessitam reconhecimento e administração ciente para bem se compreender porque – apesar do conhecimento geral, amplamente difundido e considerado trivial, que ‘uma sociedade pacifica é melhor para colaborar em busca de realizações e satisfações econômica’ – a sociedade global continua aprofundando conflitos, sectarismo, polarizações e diversas formas de fanatismos, rumando numa direção radicalmente oposta à vislumbrada como adequada e verdadeiramente humanista.

Para que a ‘sociedade’ – denominação dada a um conjunto de indivíduos convivendo e compartilhando espaços, recursos e valores – possa demonstrar os princípios que regem e possibilitam a atividade econômica como descrita pela abordagem praxeológica da EAE não se necessita de conhecimentos econômicos conceptuais, tanto quanto não se necessita conhecer os princípios da cinesiologia para caminhar. O que é necessário é que os indivíduos integrantes dessa sociedade, sejam, em primeiro lugar, sensíveis, donos de um gênio capaz de apreciar o belo, o bom e o bem, de uma ética possibilitando identificar lastros de valores, humanos e monetários, de virtude universal.

Os cidadãos, precipuamente os atores sociais mais criativos e produtivos, necessitam ser virtuosos e agir em função desses valores que harmonizam o cogito e as coisas do mundo, a humanidade e o meio, o indivíduo e o outro: essa é a circunstância universal e cultural necessária para que esse benefício se manifesta. Uma abordagem que evidencia bem aquilo que não é imprescindível saber, embora importante, mas, que, no mesmo compasso, obsta o reconhecimento do que é fundamental não pode frutificar a contente.

DA PRAXEOLOGIA DAS OPINIÕES 

Como o ouro ou o chumbo que se mineram, as moedas que se cunham, opiniões são lastradas em ideias (que podem ser justas e boas, mas, com frequências insanas) produzidas por indivíduos; para circular e adquirir liquidez, popularizar-se, os opiniões necessitam de acondicionamentos retóricos, gerenciamentos e recursos econômicos.

Em Teoria e História, capitulo 3, parte 10; LVM, estranhamente, elogia a visão de Hume que, nos seus pareceres, ensina que:

“O governo é sempre governo dos muitos pelos poucos. Logo, o poder, no fim das contas, está sempre do lado dos governados, e os governantes nada têm para apoiá-los além da opinião”. (…) “Tal percepção muda a discussão a respeito da liberdade; se a opinião pública é, por fim, responsável pela estrutura do governo, ela também é a agência que determina se existirá liberdade ou servidão. Existe praticamente apenas um fator que tem o poder de fazer com que as pessoas deixem de ser livres – uma opinião pública tirânica. A luta pela liberdade não consiste, portanto, da resistência a autocratas ou oligarcas, mas da resistência ao despotismo da opinião pública. Não se trata da luta dos muitos contra os poucos, mas das minorias – por vezes de uma minoria de um homem só – contra a maioria”.

Embora referente a Hume, opino sobre o trecho escolhido por LVM. O texto acentua evidencias instantâneas e superficiais, mas, estranhamente, carece de perspectivas históricas e praxeológicas: os governantes nada têm além da opinião e a opinião pública estrutura o governo; a liberdade ou servidão depende das opiniões do grande público que parecem idênticas às opiniões dos governantes que as espelham, apoiando. Lutar pela liberdade é resistir ao despotismo ideológico do público – cujas opiniões são amparadas pelos governantes. É uma luta dos poucos, que certamente opinam de outra forma, contra os muitos que opinam com o apoio dos governantes; em tudo caso, não é uma luta contra autocratas ou oligarcas.

Nessa estranha equação política ‘os muitos’ se autodirigem enquanto os autocratas e oligarcas, à margem de tudo ou iguais aos ‘muitos’, não parecem governar, nem ser governados, nada opinam ou apoiam, quiçá, nada fazem ou possuem – quem puder fecha as contas.

Nesse enquadramento econômico e político, acontece uma misteriosa coletivização apraxeológica das opiniões que, por si só, perfazem um malabarismo estranho passando dos muitos aos poucos e dos poucos aos muitos que com elas governam ideologicamente e tiranicamente, sendo que, em busca de liberdade, outros poucos lutam contra a opinião dos muitos, aparentemente sem efeitos.

Será que o nosso autor não reconhece que essas inflações opinativas não surgem espontaneamente? Tanto quanto o aumento periférico dos preços nos mercados populares tem a sua causa em emissões reservadas de fidúcias, as opiniões gerais dadas a circular são também monopólios. Opiniões são lastradas em ideias que podem ser justas e boas, mas, com frequência insana; como o ouro ou o chumbo que se mineram, ou moedas que se cunham, opiniões são produzidas por indivíduos e, para circular e adquirir liquidez, popularizar-se, precisam de acondicionamentos retóricos e ideológicos, de palanques, mídias e outros veículos que não são gratuitos, e, finalmente, que as mídias não são ‘do povo’ a não ser eufemisticamente. No final das contas governam os governantes e não os governados. Governam com duas coisas, educação estatal e ideologias (valores), meios (fidúcia e administração) para formar e bancar o que for necessário para sustentar as suas governanças (resultados) – uma praxe a serviço da cibernetologia.

Ignorando os valores humanos e universais, destituído de orientação, formação e recursos adequados, o redil não dirige a si mesmo, é dirigido por lobos e ruma por trilhas predefinidas; tribos de todos os matizes, famílias, clã, etnias, associações de camaradas, diversos grupos e partidos que reconhecem bem os axiomas do utilitarismo: a necessidade de manter seus aderentes e participantes em paz e harmonia, colaborando com deferência uns com os outros para a melhor felicidade e riqueza dos seus integrantes.

DO LASTRO E DO VALOR FINAL 

‘O ‘mercado’ não é uma coisa, mas um estado-de-ser social inteligente e produtivo.

Entende-se que as carências e omissões denotadas na obra de LVM não são de natureza especificamente econômicas, mas filosóficas. Talvez, em parte, uma omissão prudente, não desejando ampliar em outras frentes reações críticas já exacerbadas, evitando a paralisação dos trabalhos da escola. Poderia se objetar, ‘bom, mas ele não pretendia ser um filósofo!’; certamente, mais ele pretendia definir uma área humanista e social geradora de saber e atos sábios, implicando considerações e precisões que não foram examinadas. O presente trabalho aponta alguns desses elementos, contribuindo na afirmação dessa ciência dos valores.

Novamente, em Teoria e História; capítulo 4; A negação da avaliação; no primeiro parágrafo, LVM afirma que “os juízes de valores são considerados dados finais que não podem ser reduzidos a outros dados”, contudo, ponderando, com elegância e beleza, destaca:

“São finais, mas não são dados primários independentes de todas as outras condições do universo; o que seria absurdo. O homem faz parte do universo, ele é fruto das forças que atuam nele, e todos os seus pensamentos e atos são, como as estrelas, os átomos e os animais, elementos da natureza. Estão incrustados na concatenação inexorável de todos os fenômenos e eventos”.

No segundo parágrafo acontecem desvios de sintaxes e de categorias que dificultam o reconhecimento de parâmetros importantes para o estabelecimento de uma possível ciência dos valores. Escreve o nosso autor: “Afirmar que os julgamentos de valor são fatos incontestáveis significa dizer que a mente humana é incapaz de identificar a sua origem naqueles fatos e acontecimentos com os quais lidam as ciências naturais”.

Ora, se os juízos não são dados primários, mas interdependentes em relação a todas as outras condições do universo, então: eles se relacionam por correspondências a suas condições universais correlatas, configurando-se uma gênese condicionada ou uma originação interdependente – o que, em algum grau suficiente, justifica um exame mais cuidadoso, contradizendo a afirmação referente a uma impossibilidade de identificações relativas a dados do universo investigável.

Obviamente, o que parece querer se afirmar não é que a mente humana seja incapaz de identificar juízos que lhe são próprios (não haveria mente nem juízo), mas, que essas identificações não podem ser definidas através dos métodos típicos das ciências ditas naturais, algo evidente; não apenas os juízos, mais todas as ideias, abstrações e formulações pertencem aos ordenamentos do cogito e não se observam, a não ser por introspecção que é o método, por excelência, que refere à ciência do sujeito. Portanto, essas afirmações imprecisas reportam a fatos gerais que não coadunam, com exatidão ou exclusivamente, com as características mentais dedicadas à categorização de juízos de valores de ordem estéticos ou éticos.

Nas mesmas páginas, LVM prossiga: “não sabemos por que e como as condições definidas do mundo externo despertam numa mente humana uma reação específica (…). Não temos como descobrir a ligação necessária entre um evento externo e as ideias que ele produz no interior da mente humana”. Mas, como antes dito, saber que é através de processos de conectividades e de identificações “incrustados na concatenação inexorável de todos os fenômenos e eventos” que as condições, do ‘mundo externo’, despertam reações específicas na mente animal ou humana, inclusive juízes de valores, não caracteriza uma aporia, mas algum grau de saber.

Aponta-se um debate existencial milenar; não sabemos como dados da percepção referentes a objetos (que sejam dados qualitativos ou quantitativos) se revelam e se abstraem para configurar fenômenos mentais como juízos de valores, induções evocando coletivizações conceituais referentes a gêneros, espécies ou, ainda, abstrações numéricas; tampouco sabemos como se originam as expressividades decorrentes que se generalizam na forma de representações simbólicas.

Representações, como signos, palavras ou números integrando com fluidez o universo linguístico, não negam que na origem, parodiando LVM, “como as estrelas, os átomos e os animais, todas as formas mentais e atos”, esses signos, palavras e atos, “são incrustados na concatenação inexorável de todos os fenômenos e eventos da natureza”- um fenômeno e uma razoabilidade que, metaforicamente, lembra a liquidez das fidúcias e o teorema da regressão em busca dos lastros originais que aconteceram por necessidade.

De fato, não sabemos como, fisicamente, “condições definidas do mundo externo despertam numa mente humana, ou animal, reações específicas”. Apreciar e delimitar diferenças de brilho, cor e textura junto com diferenças quantitativas (escassez ou abundância), integrar essas diferenças na forma de realizações e insights cognitivos igualmente sensoriais e racionais, positivos ou negativos (por exemplo, resultando em mais valor atribuído ao ouro e menos ao chumbo), refere a um arco gnosiológico complexo mobilizando, conjuntamente, formas diferenciadas de inteligências; aquele que não se conhece nesses fenômenos e eventos gnosiológicos não se restringe de maneira alguma a uma forma isolada de inteligência, nem tampouco a um grupo seleto de coisas mentais.

Julgamentos de valores são certamente contestáveis, mas não porque a mente humana seja incapaz de identificar a suas origens (que seja a origem da mente em si ou dos valores como escolhas cognitivas) naqueles fatos e acontecimentos com os quais lidam as ciências naturais.

A ciência e consciência da origem dos valores é empírica e precisa, resultante de relações (que sejam espaciais, temporal, materiais, causais, instrumental, modais, identificadoras ou outras) geradoras de sentido ou identificações por correspondências, analogias, semelhanças e parentescos ontológicos; por isso a consciência é dita preposicional, ou intencional, ela é, necessariamente, consciência ‘de’ – em outros termos, as relações de saberes geradoras de valores são eficazes, precisas, válidas e consistentes, mas não são pontualmente, ou especificamente, substanciais – estabelece-se uma igualdade por gênese ou originação interdependente, isto é identificações condicionantes.

LVM, de acordo com a sua metafísica dualista e idealística, imagina que criticando, apreciando ou ajuizando um valor último, tal valor, necessariamente, passará a ser um meio orbitando ao redor de outro(s) valor(es), infinitamente. Ainda em Teoria e História; Introdução, subcapítulo 7, Meios e Fins, é escrito:

“Assim que as pessoas se atrevam a questionar e examinar um fim, elas deixam de vê-lo como um fim, e passam a considera-lo como um meio para obter um fim ainda maior. O fim último está além de qualquer investigação racional. Todos os outros fins são apenas provisórios, se transformam em meios assim que são contrapostos a outros fins ou meios”.

Tentando uma explicação mais gnosiológica, um descolamento das ‘pulsões valorizadoras’ das coisas intuídas e apreciadas esteticamente (das ordens intuitivas do cogito), em direção às mensuras da razão objetiva (das ordens ponderáveis) e produtiva, deixaria um vazio fenomenológico de insatisfações, ou eidético, talvez, no sentido husserliano, que aturaria como um atrator para a instalação de outro valor ou outro nível de valor, numa tentativa existencialista de satisfazer uma necessidade sensível de ‘ser’.

Trata-se de um movimento psíquico experimentável por introspeção, mas operando em duas direções com nuances. A primeira direção é nuançada em dois decursos; a) a partir de uma orientação idealística de diversas matizes, onde se imagina um deslocamento gradual da consciência em direção a um estado de ser postulado ‘elevado’ sobre o qual nada pode ser dito do ponto de vista da inteligência racional ou sensível – a busca dos elísios inefáveis das teleologias teológicas, ou, b) em direção a um conhecimento sempre mais fundamental, um infindo caminho apolíneo de sucessivos eurekas.

Mas, o que efetivamente existe é um estado-de-ser dono de uma natureza; por isso, existe uma outra busca não cogitada por LVM, uma busca que ajunta, aos da razão, os influxos da inteligência sensível e procede orientada em direção à um mistério final, socrático, igualmente não qualificável do ponto de vista da inteligência racional, mas, neste caso, fortemente prezado pela inteligência qualificada; um não-saber espantoso com ecos esteticamente apreciáveis.

Para afirmar muito, pouco ou mais ou menos, sejam conhecimentos de natureza empírica, lógicos e sistemáticos, baseados em provas, princípios, argumentações, evidências, demonstrações, ou conhecimentos atentos e aprofundados, ou ainda informações, noções precisas e outros saberes validos e compartilháveis, denotáveis de alguma forma, a condição basilar é estar presente, vivo e integrado ao mundo como agente participativo, sensível, capaz de captar, apreciar o que existe, dialogar e estabelecer consensos; para saber, inclusive saber não saber, não é necessário conhecer “como as condições do mundo externo despertam uma relação especifica na mente”.

Não é necessário conhecer as leis e princípios da economia, como descritos e demonstrados pela EAE para, espontaneamente, agir de acordo com esses princípios no contexto mercadológico fundador, isto é, o mercado livre; não é necessário conhecer como a vibração do tímpano sincrônica a uma onda acústica definido acontecendo quando vocalizo ‘li-ber-da-de’ gera a ideia correspondente para saber e sentir o que é liberdade e agir em consonância.

A inteligência que coaduna com a liberdade expressa no mercado onde se manifestam, espontaneamente, as antes desconhecidas leis da economia observadas a posteriori e descritas pela EAE não se origina ou substancia nas operações fracionadas e matematizadas típicas do ‘método científico’, tampouco as suas produções se apreciam, necessariamente, por intermédio desses meios artificiais e seletivos.

Para que esse mercado livre e naturalmente inteligente se realiza expressando princípios aptos a serem descobertos e sujeitos a descrições a posteriori, formando uma ciência, é necessário, como pré-requisitos, a atuação de indivíduos eticamente e esteticamente envolvidos, integrados e participativos, imersos em sincronia com a dinâmica ‘do mercado’ que não é uma coisa, mas um estado-de-ser social inteligente e produtivo.

É a estética, como epistemologia e métodos, que estudando os processos de identificações, demonstra que a capacidade e desejo de fruir do bom, do bem e do belo, de conhecer o sublime, são aspectos primordiais da condição humana, subordinando, orientando e determinando processos cognitivos e atuações que explicitam juízes de valores, escolhas e, eventualmente, quando desafiadas as identificações, investigações metafísicas.

EXPONDO UM PADRÃO IDEOLÓGICO DE INSPIRAÇÃO WEBERIANA 

Existem razões e saberes justificáveis e racionais para reconhecer a importância ética de uma boa referência metafísica – o que configura uma ciência.   

Nessas discussões éticas, ontológicas e epistemológicas, formas ideológicas tipicamente weberianas, cultismos e teleologismos acadêmicos, enrijecem e obnubilam  o entendimento. Difícil é tentar compreender os fenômenos relacionados à formação de valores condicionando as buscas ao uso de métodos inadequados, uteis à investigação de objetos qua objetos – tentativa absurda implicando uma pressuposição tácita e de confrades de que a perspectiva metafísica específica e vigente, o dualismo deslumbrando dois mundos, reinos, res ou esferas, seja algo absoluto como a força da gravidade. Proferimentos weberianos típicos como “a ciência não rege os problemas vitais” não informam muito mais de que afirmações do tipo ‘estudar mapas não permite apreciar as belezas das cidades’ ou ‘estudar receitas não ensina a saborear os alimentos’.

Elocuções repetidos – em: Max Weber e o problema dos valores: as justificativas para a neutralidade axiológica; Raquel Weiss – Rev. Sociol. Polit., v. 22, n. 49, p. 113-137, mar. 2014 – como: “Os fatos são o limite da ciência e não revelam critérios últimos; (…); “A ciência não pode conhecer o sentido da vida” (…); “A ciência não pode apreender o ser verdadeiro” (…); “Juízos éticos não podem fundamentar a pesquisa empírica” e outras expressões afins, evidenciam uma agregação e justaposição de conceitos em arranjos variegados procurando estacar os enunciados por deslocamentos metonímicos, sinonímicos, avaliações incompletas de processos de reificações, além de pressupor, tacitamente, um condicionamento cultural e histórico falsificando premissas: a submissão a uma impressão batismal, ultimamente desarrazoada, como se fosse uma categoria absoluta, necessária, exclusiva e evidente, por regra dispensando enunciação.

Essencialmente, os métodos das ciências da natureza implicam a ‘neutralidade do sujeito’ em dois sentidos, demonstrar idoneidade na apreciação dos resultados e enfatizar uma atitude, alegoricamente metafísica, de observador radical, assim como a utilização de modelos matemáticos, a experimentação e a indução. Os métodos da praxeologia implicam o estudo introspectivo, a prática da empatia, a perspectiva histórica, a utilização de utopias científicas, a dedução e a mesma neutralidade, no sentido primeiro, ser apto a aceitar os resultados demonstrados embora possam não corresponder às expectativas ou preferências.

Idoneidade na aceitação dos resultados, não significa se comportar como incapaz de ser lúcido e ter ideia do valor axiológico dos experimentos, ou ainda de não exercitar valores nem preferências na determinação dos trabalhos, escritos, palestras e objetos específicos de estudos – estudar isso ou aquilo configura uma escolha deliberada, não resulte de um sorteio.

É notório que a ‘ciência’ – que seja como capacidade geral de conhecer, campo específico de saber ou ainda metodologia – demonstra limites e setorizações de diversas ordens e categorias. Os assuntos que se estudam nas ciências sociais, não são res, coisas substanciais, são comportamentos coletivos (atualmente, originalmente ou historicamente consequentes) e/ou tradicionais, ou, ainda, representações culturais ou contraculturais, em tudo caso, na sua origem, atividades lastradas em considerações subjetivas instituídas em emoções, crenças ou valores.

Caso esses assuntos sejam considerados como objetos para serem estudados através de uma abordagem entendida como atividade sem axiológica e neutral (cientificismo), então, a sociologia, com essa metodologia descabida e cult, pode ser pensada como uma fábrica de alienações.

O uso da razão lógica, da experimentação laboratorial, ou de bancada, a aplicação de modelos matemáticos ou estatísticos para quantificar e ponderar fatos de acordo com alguns critérios como o sistema CGS de unidades, caracterizam apenas um tipo específica de atividade científica (uma ciência e não ‘a ciência’) abusivamente dita ‘natural’ em alusão aos seus objetos típicos de estudo, mas, fundamentalmente, um método de utilidade reservada e específico, explicitando um posicionamento observacional definido e equacionado numa perspectiva metafísica – distinção bem apontada no conceito de ‘dualismo metodológico’ explicitado por LVM.

Afirmar que essa postura científica específica “não permite conhecer o sentido da vida” é, com toda a razão, relembrar, ou informar um público lego e distraído, que existe um saber sensível e imediato, mas que esse saber sensível é um fenômeno que não se manifesta irrompendo entre objetos de estudos, ou, aparecendo nas reações denotadas nas bancadas de pesquisa.

Efetivamente, os ditos ‘critérios últimos’, ou critérios de valores, reflexionam posicionamentos existenciais, pertencem aos cientistas e fundamentam as pesquisas no exato momento em que se escolhe o que pesquisar – cientistas de inúmeras áreas utilizam formas epistemológicas e métodos para estudar os fatos que escolhem e resolvem estudar de acordo com as suas preferências e critérios de valores; os que alugam os seus talentos para pesquisar o que seus empregadores ou mestres bem desejam, igualmente, escolhem.

Estudos propositais e escolhidos, empreendidos com determinados métodos, revelam critérios de valores; uma atividade científica dedicada, específica e perdurante evidencia alguma axiologia. Embora compartilhando alguns métodos de estudos, investigar dados ecológicos em busca da preservação do bioma não tem o mesmo eixo de valor de que estudar os átomos em busca de armas, bombas e supremacia.

Como, sem assumir um forte grau de absurdeza, em nome da atividade científica e da ciência em geral, munido de um método investigativo e posicionamento teórico instituído em uma perspectiva metafisica que neutraliza o saber natural e estético do sujeito, pretender definir as grandes realidades, verdades e aporias referentes aos potenciais da humanidade?

Um conjunto atuante de valores aparece como fundamental para suportar um mercado livre, maximamente eficiente e criativo. Para isso a organização social deve permitir a melhor e mais proveitosa alocação dos fatores de produção, o que implica uma máxima autonomia e liberdade dos agentes atuantes que, por sua vez, necessitam se respeitar mutualmente e respeitar com honestidade e sinceridade a propriedade e usufruto dos seus relativos meios de produção e produtos; o que só pode ser adequadamente realizado na condição em que os intercâmbios e trocas de bens, no sentido mais abrangente, aconteçam de maneira confiável, justa e pacífica. Condições que exigem um instrumento de troca, ou moeda, que, para ser adequado e atender as necessidades de um mercado maximamente eficiente, precisa ter sido praxiologicamente instaurado a partir de uma commodity, além de ter alcançado uma ampla liquidez, senão universal; na hipótese de circular como papel, a moeda deverá ter um eventual resgato (do seu lastro) plenamente garantido.

Mas é obvio que essas virtudes ou qualidades (liberdade, autonomia, reciprocidade, respeito, sinceridade, honestidade, paz, confiança, justiça e outras) não existem como meios ou recursos relativamente disponíveis no mercado, aptos a se trocar, comprar e estocar; virtudes não se encontram nas arvores tampouco nas lojas, não são commodities. Uma boa sociedade, pacífica e prospera, é virtuosa, e virtudes, pessoais ou sociais, são qualidades gnosiológicas que expressam valores éticos praticados por indivíduos dotados da capacidade de apreciar a importância vital e universal deste exercício e das referências metafísicas que mais condizem com essa consecução.

Utilizando as delimitações e abordagens adequadas (possuidor de uma consciência de si suficiente para se entender como entidade psicofísica imersa no contexto universal em um processo de originiação interdependente) nada impede a formulação de decursos cognitivos em que se identificam perspectivas metafísicas, valores, fronteiras e realidades contextualizadas: equacionando-se desta forma os eixos de coordenadas para que se evidenciam orientações e valores existenciais. Com alguma criatividade e boa vontade não é difícil demonstrar a razoabilidade, consistência, congruidade, contextualização e justo valor desses juízos.

De fato, não são noções de ‘racionalidade’ ou ‘irracionalidade’ coligadas às renitentes discussões sobre juízos de valores que geram e alimentam esses debates – para ser válida e razoável, logo geradora de saberes fundamentais, uma ciência não necessita acondicionar seus dados em matematismos, arrazoações matematizáveis, ou utilizar um único método. A condição sin e qua non para que isso acontece é ser o pesquisador flexível, livre e corajoso o suficiente para, a gosto, desconstruir e reconstruir a perspectiva metafísica idealista padronizada no cultura, recordando o enquadramento cognitivo basilar e natural, pré-platônico.

O valor ‘liberdade’ é razoavelmente comprovado como uma causalidade necessária ao surgimento ou ressurgimento de praxes como as definidas pela EAE, assim como para a instalação adequada de uma sociedade e mercado livres, permitindo a melhor contextualização produtiva e ecológica do ser humano em relação ao que é outro e ao seu meio – afirmação resultante de um conhecimento intenso, atento, aprofundado, racional e sensível, logo, um parecer ciente, ou científico.

APONTANDO TABUS

A apreciação das perspectivas metafísicas e o entendimento dos limites do saber determinam a natureza e as qualidades das fronteiras do estado-de-ser, os usos e costumes que gerenciam as identificações e relações com o que é outro; logo, esse é o saber fundamental que determina as políticas e as praxes econômicas na sociedade dos humanos.   

O desconhecimento incidental da ciência dos valores é resultante de uma longa supressão cultural dos seus fundamentos; a recusa teológica em reconhecer que a inteligência sensível, dom natural amplamente compartilhado entre os integrantes do reino animal, é a base da cognição e o fundamento inaugural da estética, terreno onde floresce a luz da razão.

Que seja fundada em um zelo religioso obsessivo, ou ainda no pavor de enfrentar e superar o abismo ‘aconceitual’, espantoso, que jaz logo após o desmoronamento das perspectivas hiperuránicas; é a recusa teológica em aceitar que a ciência e o saber não manam de um hipotético mundo ideal (dualismo ontológico) revelado por enviados, apreciado por sábios, interpretado por hermeneutas que reprime a apreciação filosófica da perspectiva metafísica censurada.

Tanto quanto a investigação praxeológica periférica – que correlaciona atuações ocorrendo entre metas, meios e resultados – exige avaliações contextualizadas em dois eixos divergentes de orientações sociopolíticas para pontuar pareceres conclusivos (de um lado o âmbito do ‘laissez-faire’, do outro o do intervencionismo estatal); a demonstração de uma ciência dos valores, igualmente, implica o estabelecimento de uma investigação praxeológica (desta feita, central) contrastada em dois eixos de perspectivas metafísicas.

A reintrodução gnosiológica de uma outra referência metafísica possibilita um reenquadramento cognitivo fundamental onde é possível recoordenar e reequacionar os reconhecimentos e posicionamentos identitários que são geradores de juízes de valores universais e culturais; desta forma, desenham-se novos direcionamentos cognitivos por onde se harmonizam as demais escolhas e atos, produzindo-se novas lucidezes comportamentais, sociais e decorrentes realizações civíticas e econômicas – uma nova civilização.

O eixo necessário, hoje carente de explicitações, à constituição do enquadramento cognitivo onde é possível construir uma ciência dos valores é a perspectiva metafisica cosmo-existencial (monismo paradoxal), que perfazendo um eixo de coordenadas diverso, pode, contrastado com o eixo de perspectiva transcendente-transendental (dualismo kantiano) permitir uma reapreciação dos juízes fundamentais onde se esclarece a natureza humana.

Se o conceito de neutralidade axiológica defendida por Max Weber e seguidores, entre outros, embora absurdo e repleto de contradições, falácias e dubiedades, fascina inúmeros cientistas ditos sociais, dificultando a elaboração de antíteses, é devido à perspectiva metafisica embutida e aceita sem discussões como um fato absoluto, uma sombra renitente igualmente compartilhado pelo cientificismo e a teologia dualista; isto é, uma perspectiva imperando sem disputas, formatada nas formas gnosiológicas e impressões batismais vigentes e refratárias a críticas – tabus.

É a empatia estética que permite conceber e vivenciar a fruição do belo como um talento fundamental e apto, de imediato, a subordinar e orientar os processos cognitivos em direção à elaboração de valores e atos virtuosos, sem a necessidade de revelações intermediadas e apostoladas por religiosidades. É a brutal e perdurante repressão cultural desse dom natural que barra e cerceia um desafio rigoroso da teoria da neutralidade axiológica como comumente aplicada nas ciências socais.

É o dualismo, rompimento da harmonia gnosiológica, que ofusca a intuição do belo. Esse deslocamento idealístico do foco psíquico é resultante de uma milenar e sangrenta revolução cultural iniciada nas Guerras Médicas, na invasão da Jônia por Cirus II, expandido o zoroastrismo e maniqueísmo (c 546 a.C.). A filosofia platônica (428 – 348 ou 347 a.C.) reforça essa elaboração dissociadora da intuição metafísica que, séculos depois, é impulsionada politicamente e popularizada por Constantino o Grande (c 285 d.C.-337 d.C.), primeiro imperador romano católico, regedor dos movimentos conciliarísticos onde originaram as regras e dogmas da Igreja que é a fonte primordial da repressão cultural que erradicou as escolas de filosofia inclinadas ao monismo e cultos naturalistas referentes.

Monopólio imperial imposto com violência, a perspectiva dualista do idealismo e da revelação, seus ritos e cultos, volatiliza a ciência dos valores em brancas nuvens, substituindo os arcanos da prudência e da razão por dogmas rigorosos apostando valores em hipóteses carentes de razoabilidades, logo contrariando, desnaturando e desviando profundamente a natureza humana, fomentando a perdição, desordem e corrupção hoje, hélas, instituídas.

A perspectiva metafísica dualista compatibiliza e afina com o dualismo metodológico dito científico. A neutralização do sujeito pesquisador em observador teórico produtivo e apático, interessado, mas emocionalmente indiferente em relação aos seus objetos de estudo, afina com essa resignação conformada e piedosa, esse distanciamento religioso em relação às coisas terrenas ou materiais.

As exorbitâncias, ultimamente culturalistas, onde se contrapõem antagonismos, de um lado o cientificismo, behaviorismo e antimentalismo, e do outro o intuicionismo, dogmatismo e mentalismo compartilham debates ao redor da mesma coordenada metafisica, mas, apesar dos conflitos, estabelecem uma aliança tácita que faculta convívios e associações acadêmicas perdurantes; embora a inteligência científica e sua metodologia típica repudia a ideia de uma realidade espiritual substancial (descreditando o idealismo neste sentido) a sua utilização abusiva para o estudo das ditas ciências sociais induz a formação de teorizações hipotéticas, com graus de plausibilidades que se entalecem em discursos teológicos paralelos e derivados onde incertezas fenomênicas se elevam a intuições divinais.

Tanto o cientificismo quanto o espiritualismo idealístico, por razões diversas, renegam a inteligência sensível, que concebe à dimensão estética o poder de subordinar e orientar os processos cognitivos em realizações plenamente razoáveis onde se estabelecem outras possibilidades científicas, como uma ciência dos valores, e onde se confrontam e consideram outras aporias, como a impossibilidade de certificar a autonomia da realidade frente aos parâmetros cognitivos (como no princípio da incerteza física – Werner Heisenberg, 1927)

Uma aporia profundamente embaraçosa e desencantadora para essa ciência neutral que aspirava ser radicalmente objetiva e se idealizava destituída de quaisquer axiologias humanista. O reconhecimento claro e progressivo dos potenciais cognitivos e dos seus limites amplia o saber e liberta a cultura das suas extravagancias, distorções e corrupções.

A reinstalação da ciência essencial à sustentação de uma cultura convergente com a natureza, sinérgica e harmônica, exige a redescoberta dos seus princípios e subsequente afirmação consciente do valor inaugural: ‘sou natureza livre e universal’, que, por si, explicita tanto a natureza humana quanto a ciência dos valores, que é ciência sincrônica a essa natureza livre. Natureza livre, porque o ser humano tem a liberdade de recusar a vida, negar sua própria existência – querer viver, anuir com a vida, é a sua escolha e ato primordial.

A causalidade determinística de ordem biofísica é desfiada com o surgimento do estado-de-ser humano apto a exercitar uma vontade consciente e desta forma dirimir todas as demandas da natureza. Querer viver, esse primeiro ato instituído a posteriori e posto no seu tabernáculo fundamental, já manifesta uma escolha e um juízo, sendo, identicamente, um ato e um valor.

Uma atitude não determinística e intrínseca que consagra a liberdade como, igualmente, valor e princípio existencial fundamental: ato e valor fundador a ser – querendo viver bem – confirmado e honrado na idade da razão.

Quando mais complexas as suas ações e escolhas, mais consciência e ciência necessitam ser exercitadas e mais o ser humano precisa reafirmar a sua anuência com a manifestação vital basilar: querer viver e querer agir é um ato de valor absoluto que, por si e em si, desmorona as retóricas dicotômicas separando atos e valores, coisas da razão e do coração, e, nos extremes das buscas, fenômenos do cogito e do mundo – esses distanciamentos são recursos metodológicos, pontos de vista com frequência produtivos; não são necessidades ou verdades ontológicas.

O estado-de-ser humano pode expressar a sua existência em diversos graus de vitalidade e valor, equacionados entre ignorância e saber; mas, para o ser humano pleno e realizado, viver e agir é, igualmente, um ato e um valor sensível e racional – não é uma determinação, tampouco um mandamento.

O ser humano plenamente realizado e ciente de si, escolhe viver, agir, estudar e pesquisar de acordo com um potencial existencial original que é um valor chamado liberdade. Uma vez esse ato e juízo de valor estabelecido com consciência plena, ‘ser livre’ – liberdade – rege e afirma, igualmente, existência e ação. Existir é ser libertário, por identidade, por isso é o liberismo que pode gerar mais vitalidade, prosperidade e felicidade.

Essa gratuidade liberta de determinismo, se não de causa, faz da liberdade o motor primo da vida boa. Anuir existir, aceitando e agindo a vida, significa, antes de tudo, achar bom, concordar, estabelecer um fundamento onde se triangulam em uma mesma identidade o que é sensível, racional e existencial; confirmado e comprovando-se a grandeza e beleza desse élan vital.

EM CONCLUSÃO

A ampliação da consciência e da lucidez, a aquisição do conhecimento de que o respeito à natureza e aos seus princípios é de vital importância, configura um caminho turbulento que parece exigir contrastes balizados entre presença e ausência, surgimento e desaparecimento, luzes e escuridões. É, talvez, esse processo existencial que permite dar valor, a posteriori, ao que falta, ou desapareceu, que motivou o surgimento de mitos como os da Idade de Ouro, do Eldorado, assim como uma curiosa apreciação das alegorias – como a da caverna.

Frente a uma aporia como o mistério da relação entre os fenômenos do cogito e as coisas objetivos, configuram-se duas opções: respeitar os limites da razão expressando o mistério em espanto, ou, desrespeitar a razão e as responsabilidades que a ela atinam, afirmando uma suposição como verdade, configurando um salto hipotético cujo efeito é deslizar e desagregar a atenção da experiência-vital e imediata comunhão existencial para um oco assombrado e cavernoso, fervilhando de conjeturas e reflexões, especulações brumosas e opacidades; nesse processo de perdição, deixando as coisas do mundo e da sensibilidade sem trato, abandonadas e ermas.

A humanidade não parece ser senhora dessa referência sapiente que lhe é atribuída, mas, certamente, veicula um potencial que exige para se manifestar uma ciência dos valores. Existindo em contextos universais, veiculando habilidades cognitivas aptas a processar escolhas complexas, o estado-de-ser humano precisa desenvolver uma ciência dos valores para não se perder ou autoerradicar.

Sem essa ciência subjacente, atuante, maximamente humana, ‘o mercado’ demonstra ser uma cibernética mercadológica clânica, com potenciais destrutivos, onde impera um consumismo insano, propagandístico; uma dinâmica regimentada e viciosa como uma imensa drogaria, ofertando substancias consoladores ou compensadores, aditivas, ensejando sanar disfunções e desordens superficialmente psicológicos, mas profundamente metafísicos e políticos, por isso fundamentalmente econômicos.

Sem essa ciência dos valores para afirmar a idoneidade da humanidade, as escolas de filosofias se transformam e igrejas; as moedas em fidúcias; a praxeologia em cibernetologia; o liberismo em autoritarismo; a realidade em mitos e como capim brabo e urtigas, brotam ao redor do globo uma abundância de seitas e estados sociocráticos. A volatilidade e instabilidade das fidúcias destituídas de lastro, os custos da burocracia financeira e das regulações, dos intervencionismos fiscais e das restrições extinguem os fundamentos socioculturais e virtudes necessários ao um convívio e empreendedorismo seguro e sensato.

No reino da fidúcia, o hábito da poupança é destruído a favor da especulação e do acumulo desequilibrado de estoques, da prática desenfreada de um consumismo e merchandising apelativo que venda a crença de que a felicidade suprema é proporcional ao consumo a ponto de, eventualmente, provocar uma depauperação dos bens comuns e escassez global de recursos; hoje, um empobrecimento ético e de fato já corroeu e envenenou o bioma estruturando uma catástrofe anunciada.