O QUE É GRANDE ESPÍRITO? Resgatando o conceito

Régis Alain Barbier

Em nenhum dos meus escritos utilizo a palavra espírito, a não ser em uma ou duas citações. Bani o termo que hoje resgato, oferecendo uma definição. Espírito ‘x’, ‘y’ ou ‘z’, alfa ou ômega; espírito como unidade genérica de um sistema de medida. Uma ordem medidora diversa do sistema c.g.s (centímetro, grama e segundo) onde se quantifica coisas extensivas, mas similar a um sistema de valores praxeológico como eram os sistemas monetários nos seus momentos fundadores.

Neste ensaio, defino o termo ‘espírito’ como uma categoria consciencial medidora de abrangências e qualidades metafísicas, ou numinosas. Portanto, especificamente, aplicando a definição, o que é espírito ‘grande’, ou grande espírito?  É a qualidade metafísica da natureza universal que se reconhece e experimenta com consciência plena. Por isso é grande, ou universal, e é espírito como consciência da natureza do estado-de-ser. Grande espírito é o conhecimento e saber que a consciência é consciente das coisas do mundo e que o mundo só existe para a consciência. Esses dois atributos enlaçados, consciência e mundo, perfazem uma composição harmônica e pareada. A justa e plena apreciação dessa inteireza é o grande espírito. Expressões filosóficas, como ‘natureza humana’, ‘luz da razão natural’, evocam aspetos desse estado ciente de ser.

Todas as crianças, de alguma forma, reconhecem essa grandeza espiritual que se vivencia em muitos momentos do dia, ainda mais se deparando com coisas belas e poéticas; o arco-íris, as flores do campo onde se anda com receio de pisar na grama que regurgita de joaninhas e libélulas. É o grande espírito irradiando as infidas dimensões da unidade primordial, a excelência e certeza simples de ser natureza, fonte espiritual de contentamento e valor existencial.

Mas, quando o caminho que leva ao reconhecimento do grandioso esbarra e esvanece veredas doutrinarias anunciadas por sacerdotes que posam como privilegiados representes exclusivos do divino, escolhidos, instala-se uma situação de conflito e ruptura espiritual. O que é gracioso, inato e universal degenera em algo artificioso exigindo intermediações para se pacificar e, supostamente, alcançar as indiretas bençãos surreais de um espírito transformado em revelação do além.

Transformar o que luz e verte imediatamente da natureza do estado-de-ser de em algo oculto e separado é contraintuitivo, grosseiramente lesivo; decompõe a excelência do ânimo nativo frente ao belo em coisa estranha que não se compreende nem reconhece, gerando uma profunda carência existencial que serve de crisol de onde procede grande parte das frustrações e iniquidades que assolam a sociedade dos homens.

O espírito se torna mesquinho, dependente de pomposos representantes titulares; confunde-se a glória e leveza de ser pleno e cósmico com títulos, funções ou posições hierárquicas, com o brilho dourado da seda e dos paetês; o que o espírito perde em grandeza, ganha em disputas. Essa obnubilação e desmando espiritual é a causa fundamental dos grandes desacordes públicos onde infindas batalhas e dogmatismos religiosos e políticos substituem a honra natural de ser o que se é – a identidade universal e  essencial integrando em substância e consciência a totalidade dos seres. Os resultados são evidentes, basta folhar os cotidianos e os livros de história fartos de enredos e narrativas de repressões, sectarismos e apartheids.

Indubitavelmente, a desarmonia societária assenta nas rusticidades clânicas e numa falta de maturidade humanista que ainda não encontrou alivio nos ensinos da filosofia existencialista, mas, a soberba instituída no uso da força bruta exacerba sobremaneira quando coroada em imperiais delírios sacerdotais onde se sabotam a apreciação natural e vivência do grandioso, travando-se o espírito em cultos aos chefes, gurus, papas, santos, relíquias ou, numa versão positivista e rígida, estabelecendo-se regras sociocráticas e sacrossantas aplicadas por burocratas. Os arranjos societários privilegiantes são fundamentalmente regidos em alianças e conchaves teopolíticos onde os domínios conquistados são confirmados em juízos imperiais e bençãos sacerdotais; as governanças políticas da atualidade se sustentam nas aureolas da ideológica religiosa e ancestrais fundações, esplanadas, colunatas e sacadas de impérios e reinados. Nas periferias mais rústicas da desordem, um círculo vicioso de divergências eto-culturais acentua um retrocesso neoclânico onde se destroem as intuições iluministas e reforçam a barbaridade.

A humanidade sabe encontrar a excelência e a simplicidade quando não é embaraçada em sofisticações e cultismos que vivificam formas e modelos impositivos e iníquos de governanças. Não há como, sem hipocrisia, condenar os resultados terminativos dos desrespeitos à natureza humana sem apontar as causas socioculturais e econômicas dos enraizamentos culturais que ainda operam nas pompas, edificações e etiquetas sugerindo superioridades em aparatos fantasiosos que destoam com o estilo e a sobriedade do lema filosófico e espiritual da república verdadeira, igualdade, fraternidade e liberdade.

O redirecionamento do desmando só poderá se realizar a contente reconhecendo que, certamente, é do domínio privado e caseiro o direito de crer no que bem se deseja e louvar o que for, mas, por outro lado, é do dever público, de todos os humanos dignos do epíteto sapiens, livrar o âmbito cultural, social e pedagógico dos dogmas, modos e influências decorrentes de elitismos arcaicos instaurados em perspectivas irracionais e repressões do espírito filosófico. Honrar a humanidade é também aprender a respeitar os contextos; a praça pública não é o lugar onde impor as nossas preferências, mas onde deve reinar o bom senso e os instrumentos que o favorece. É preciso apontar a verdadeira natureza da excelência espiritual – o respeito à humanidade – e transformar as governanças políticas, que, hipocritamente ditas democráticas, florescem bitoladas nos usos e costumes da excludente, conclavista e conchavador espiritualidade imperial e teocrática.

É necessário contribuir para a instituição de uma nova forma republicana de governança, participativa e dialógica, civítica, em que todos os humanos e grupos, independentemente das suas etnias, ocupações culturais, nascimentos e laços familiares, sejam efetivamente conclamados, antes de tudo, a respeitar a sua natureza humana e virtudes basilares, a razoabilidade e aptidão filosófica; ousar reconsiderar os dogmas e tradições à luz da grande razão filosófica, para cada vez mais e em conjunto, se responsabilizar pelas suas atitudes, ações culturais e condutas. Ainda é tempo para se humanizar e dar valor à vida honrada e festejada à luz do livre e magnânimo ‘grande espirito'; haverá lucidez e boa vontade para tanto?