DA EPISTEME ETOCULTURAL E DO SEU VALOR

Mão humana

 

 

 

 

 

 

Régis Alain Barbier – barbier-ra@uol.com.br – 16 de junho 2016

DA EPISTEME ETOCULTURAL E DO SEU VALOR 

1- DO POSICIONAMENTO ETOCULTURAL (PEC)

2- DAS RELAÇÕES ETOCULTURAIS

3- DAS DESVENTURAS ETOCULTURAIS

4 – DAS CONVERSÕES ETOCULTURAIS

5- DA COMUNIDADE COSMO-SINÉRGICA E DA SUA CONSTITUIÇÃO

1- DO POSICIONAMENTO ETOCULTURAL (PEC)

Até provas contundentes em contrário, os humanos originaram e evoluíram na biosfera. Desconhecem-se entidades estranhas a essa composição bioelementária; somos natureza. Existimos em conectividade e intercâmbio com todos os reinos, compartilhando os recursos do Planeta Terra, lugar singular e necessário de surgimento. À luz da razão que nos consagre, concluímos, juntos com os observadores mais criativos e sensatos, que o nosso mundo surgiu de um jorro multiforme de átomos e moléculas em configurações cósmicas e planetárias.

Conjugados na caudalosa criatividade da flora e da fauna surgiram os hominídeos. O ancestral Homo erectus, provável pioneiro da linguagem, entrou em existência há aproximadamente 1,5 milhões de anos, iniciando um lento processo de diferenciação até o acontecimento da nossa espécie há possivelmente 40 milênios. Os graus de complexidades estruturais, comportamentais e cognitivas, forjados nesse longo processo resultaram em um estado-de-ser apto a um exercício máximo de autopoiesis (do grego auto ‘próprio’, poiesis ‘criação’) – termo introduzido na década de 1970 pelos biólogos e filósofos chilenos Francisco Varela e Humberto Maturana para designar a capacidade dos seres vivos de produzirem a si próprios.

Apto a dirimir todas as demandas da natureza, o ser humano desobrigado de gostos e valores predefinidos, demonstra ser capaz de exercitar uma máxima autonomia para destruir ou construir, prejudicar-se com excessos, temeridades e destemperos, ser egotista ou altruísta. É no poder do indivíduo recusar se alimentar até morrer de inanição; decidir ser bom ou mau nas escalas de valores que imaginar; inclusive negar a sua própria identidade e fundamentos cognitivos, sua perspicácia e intuição, para, apesar das evidências, fantasiar ser outro ou apenas parte de si, até mesmo imaginar ser sobrenatural!

A realidade existencial é judiciosamente descrita como um processo metafísico criativo onde opera um eixo fundamental relacionando dois atributos consubstanciados. Definido por Descartes e reconceituado por Espinosa, o que existe é compreendido como uma  construção sustentada em dois pilares, de um lado, a res extensa, o conjunto das forças físicas e coisas ponderáveis (o lastro da existência), corporeidade e materialidade geral, a dinâmica atômica indo das nebulosas aos três reinos, e, no outro ponto diametral, o atributo existencial cogitans, da volição, dos pensamentos e sentimentos, do psiquismo onde tudo se conscientiza e valoriza, intui, percebe, representa e imagina espontaneamente ou balizado por intermédio dos dois métodos epistemológicos fundamentais, científico e praxiológico.

Existir nesse contexto psicofísico permite escolhas complexas, onde o fluxo das ações e dos eventos culturais é produzido por uma multidão de indivíduos ensejando sanar formas sempre renovadas de insatisfações interagindo a partir dos potenciais da inteligência sensível (hoje grosseiramente recalcada) e da inteligência racional (hipertrofiada por instrumentalização cultural) condicionadas em métodos e comportamentos cognitivos variegados.

Três paradigmas determinam fundamentalmente os padrões culturais: 1) o que se acredita ser, noção de identidade; 2) o que se imagina e aceita como missões mais genéricas; 3) os modos cognitivos de valorizar informações e conceitos; a) seja com ceticismo, criticamente, por análises e aceitações provisionais pautadas nas medidas do bom senso ajuizado em correspondência com o sistema solidário e harmonioso de princípios e praxes que operam na natureza; b) desprezando a razão e a praxe universal, evocando revelações e fé para preconizar a existência de verdades superiores desconexas da harmonia universal; c) pela utilização legitima (científica) da razão na investigação das coisas da natureza; d) adotando abusivamente o método científico como critério epistemológico para compreender o que resulte de escolhas de valores e ações derivadas nos campos das ciências humanas, como filosofia, economia, história, sociologia, antropologia entre outras disciplinas (cientificismo).

A criatividade, a qualidade e congruência do cogito determinam a qualidade das culturas e dos convívios, bem-estares ou mal-estares resultantes. Dotado de grande capacidade autopoiética e empreendedorismo, configura-se caráter específico do Homo sapiens exercitar padrões comportamentais, usos e costumes subordinados ao que imagine e acredite ser em decorrência de escolhas lúcidas ou conceituações introjetadas – que seja por imitações, contágio, adesões irrefletidas a padrões culturais.

O que se pense e se afirme de si mesmo e da existência raramente resulta de uma curiosidade criativa, é transmitido através de formas culturais aprendidas por imitação ou imposições; neste continuado exercício de aculturação poucos são os indivíduos, ou sociedades, que empreendem revisões deliberadas e exames críticos, filosóficos, buscando identificações e narrativas mais sábias e congruentes, cultivar critérios mais judiciosos no sentido de afirmar valores, atitudes e condutas em harmonia com diretrizes etológicas, isto é concordantes com a natureza que somos e suas circunstâncias universais.

Caso exercitasse a sapiência, como suposto, a humanidade se guiaria à luz da sua aptidão específica – a razoabilidade – e afirmaria uma cultura examinada e escolhida, isto é, em harmonia com diretrizes etológicas, valorizando usos e costumes convergentes com sua natureza e circunstâncias universais. As relações sociais aconteceriam em consonância com esse sistema solidário e harmonioso de princípios operantes, ou ethos (êthos,ous, vocábulo grego significando morada, covil ou toca em se tratando de animais).

O termo se refere aos modos de ser dos indivíduos e coletividades em relação às suas naturezas, circunstâncias, meios ou habitats. Em conjunto, refere-se a faculdades e talentos definidores de identidade, individual e grupal, traços comportamentais próprios e culturais em uma perspectiva ampla, psicossocial e ecológica. Trata-se do que, especificamente, caracteriza a natureza humana: um conjunto de valores apropriados, motivações, aspectos intelectivos, afetivos e juízos relativos a si mesmo e ao mundo. Numa definição rigorosa, ethos refere-se à fundamentação central do estado-de-ser que é naturar (termo spinoziano) no âmbito social e planetário com lucidez e qualidade, reconhecendo e afirmando com sobriedade e idoneidade o ânimo existencial, ou gênio, mais harmônico e fecundo que corresponde a esse estado-de-ser; assim sendo, realizando o ethos.

Como existe sintonia e harmonia fotossintética entre a vegetação e a luz solar, entre a humanidade naturalmente reconhecida e justamente identificada – em convergência cultural com seu ethos – certamente existem praxes, usos e costumes  mais apropriados. Entre a humanidade justamente assentada e sua realidade social é possível descrever e estabelecer processos sociológicos concordantes e aptos a elevar os homens ao seu melhor destino e florescimento.

A cultura dominante, globalmente vigente, é infiel por divergir do ethos que faz jus ao estado natural de ser humano. Agora duvidosa, confusa, perdida em ideologias e formas políticas espúrias, a humanidade confunde planos idealizados, mediatizes estatísticas, ilustrações arquetípicas e míticas, com qualidades distintivas e fundamentais, cultivando com afinco aspirações e desejos irracionais geradores de conflitos, graves contradições e cismas, desta forma renegando a sua real identidade e ethos.

São as divergências (por extrapolação e objetificação) entre a identidade natural ou etológica do Homo sapiens e as fantasiosas e desconectas narrativas doutrinadas pelas instituições e tradições culturais, principalmente religiosas e cientificistas, que geram e motivam a grave patologia social em que a civilização enredou.

A expressão ‘divergência etocultural’ (DEC) refere-se à discordância entre padrões existenciais sabiamente reconhecidos como condizentes com a natureza humana e padrões culturais propagados e doutrinados pelas principais tradições instituídas; essa DEC carateriza um desvio de ethos, de uma ruptura etológica, resultante numa supressão histórica, teológica, política e econômica massiva da ordem social dita civítica (termo introduzido em outros escritos autorais), que é a praxe existencial adequada e atinente à natureza humana.

Com efeito, o termo político é dúbio por abrigar duas definições: 1) ciência do domínio estatal e da subjugação física e ideológica, cibernetologia, mas, igualmente 2) ciência da cidade, da civilidade e da praxiologia cortês, portanto, trazendo aspectos antitéticos numa definição carente de claras e precisas distinções. Faço uso do termo civítico, para bem diferenciar os significados opositivos colocados na mesma definição: o que refere à arte da civilidade e cortesia, do eco humanismo, onde se manifesta o respeito e estimula a criatividade, o exame filosófico e a verdadeira cidadania participativa; da acepção referente à dita ‘ciência política’, como técnica de governança partidária, representativa e elitista, típica de nações historicamente superestratificadas, isto é, submetidas e enredadas em manipulações ideológicas a serviço de plutocracias e formas teopolíticas de governanças.

No ordenamento civítico, uma formação social convergente do ponto de vista etocultural, despontam organizações comunitárias e sociais, arquiteturais e econômicas de envergadura eco humanista, um modo realista, atualizado, dialógico e coloquial de ser e conhecer: quando necessários, pareceres especializados e técnicos sobre o bom uso e investimento dos recursos inspiram e servem a comunidade demandante.

O conceito de governança civítica representa a transformação simbólica de uma grande pirâmide de granito em inúmeros canteiros circundando jardins floridos e árvores frutíferas; significa a reconfiguração dos construtos políticos e econômicos corruptos e corruptores, elitistas, hierarquistas e sectários (amparados em auréolas teopolíticas no imaginário sociocultural) em comunidades etoculturalmente convergentes, portanto eco-humanistas, civíticas e libertárias.

2 – DAS RELAÇÕES ETOCULTURAIS

Menosprezada, estranha às ortodoxias societárias, até mesmo banida, a intuição spinoziana é contudo incontornável. Ela intersecta com tradições milenares, exemplarmente o taoísmo, ao delinear a configuração existencial como um sistema paralelo de atributos complementários, desta forma inspirando importantes desdobramentos, notadamente a abordagem psicossomática das doenças e, provavelmente, a dita ‘nomenclatura binomial’ que regula a atribuição das denominações científicas dadas os organismos em dois termos, um nome e um descritor (biotaxonomia).

A fecundidade deste princípio filosófico conjuntivo permite desvendar o universo como um imenso texto que se realize e exista quando cogitado. Enunciado em termos atuais como qualificadores ou descritores são os processos de conscientização que, por necessidade, geram a consciência dos eventos e do mundo e o mundo apenas se manifesta desta forma, sem que haja possibilidade de provar em contrário. Quando um eventual desvio etocultural resulta na alienação de uma população, um possível redirecionamento em busca de lucidez cognitiva exige o delineamento e a recuperação (ou recordação) do que é naturalmente evidente: o ato de existir é um acontecimento presencial, uma experiência onde sujeitos que cogitam confrontam objetos.

Idealizar a função cognitiva como um fenômeno autônomo e dissociável do sujeito pensante é um procedimento imaginário, um mero ponto de vista metodológico gerador de informações produtivas ou não. Pôr o sujeito ‘entre parênteses’, dissociado da sua produção cognitiva, é um posicionamento metafórico, forçosamente hipotético e fantasioso quando utilizado para referir o ato de pensar a épocas passadas ou futuras em que, como premissa, o sujeito não existia, ou não mais, na sua natureza e individualidade.

Utilizar figuras linguísticas, dito em termo lacaniano, “condensações metafóricas e deslocamento metonímicos”, para afirmar teologismos que teorizam a existência de pensamentos e sentimentos transcendidos em espíritos e almas desencorpadas, supondo-se, no tabuleiro de uma ‘consciência em si’, acontecer interações autônomas entre os elementos de uma trindade desarticulada feita de ‘pensamentos’, ‘sujeitos’ e ‘objetos’ é insultar a sensatez aclarada pelo bom uso da razão! Tamanha alienação etocultural, que leva a confundir imagens e métodos com fatos, provoca uma perda de contato com a realidade é impulsiona uma grave divergência do plano existencial com aterradoras consequências.

Nessa configuração gnosiológica construída para adestrar obediências a imperativos fideístas, os possíveis consolos correlatos ao imaginário deslocamento do pensamento idealisticamente imortalizado, redundam em uma aberrante negação da concordância natural e genésica entre, de um lado, a totalidade do bioma e meio ambiente e, do outro, a humanidade que passa a se enxergar como adventícia, estranha à harmonia e praxe universal. As consequências são catastróficas: sentimentos de alheamento; desprezos relativos à flora, fauna e à própria natureza humana; decadência dos potenciais civíticos em governança autoritárias com a consequente geração de iniquidades e constrangimentos, por sua vez causadores de ressentimentos que, em círculos viciosos e catastróficos, amplificam as magoas, as divergências e disfunções.

Fácil é conceber o funesto efeito de tais desnaturações imaginando viajantes dos portais do tempo, um século antes da conquista, sobrevoando a floresta amazônica em um balão dirigível. Abduzem-se três jovens indivíduos, um tupi, um guarani e um ianomâmi. Confrontados com esses ditos indígenas, os civilizados cogitam sanar sua suposta rusticidade, lançando-os em direção ao futuro para um tratamento psicanalítico. Surge um debate sobre a eficiência de uma terapia tão sofisticada sobre essas mentes primitivas e selvagens; resolve-se converter os infantes aos paradigmas culturais fundamentais dos invasores.

O comandante da expedição inicia com o discurso fundador, batismal: – Jovens tenho notícias para vocês. Primeira, não pertencem à floresta; não são desta terra! Segunda, não estão em harmonia com Tupã como imaginam, mas, em oposição divergente; terceira, foram lançados neste inferno verde para purgar pecados cometidos além terra!

O choque é enorme, desorientados como árvores arrancadas e lançadas no vazio, os jovens lamentam um sentimento de profunda perdição, na defensiva, contestam as afirmações, tentando evocar a sabedoria dos seus ancestrais; os invasores desconhecem as reticências e insistem nessa doutrina fantástica com ameaças e castigos. Por fim, a dita formatação tripartida e típica da psique civilizada – superego, ego e id – resulta retalhada e gravada, como cicatrizes de sabre, no psiquismo dos incautos, agora sim, passiveis de ajustes e confrontes terapêuticos.

A linguagem modula, mas não origina as intuições, tampouco os sentimentos e saber imediato, mas enraíza neles; ela é o formato do conhecimento, senão do saber, o fundamento das ideologias; trata-se de uma conquista cultural lenta e progressiva envolvendo todos os humanos; inicia nos grunhidos e onomatopeias dos nossos ancestrais até se burilar em representações sofisticadas, narrativas, desenhos, cerimoniais, etiquetas, teatrologias e cinematografias; trata-se de um instrumento poderoso capaz de criar cenários, cidades, paisagens e países, embotando ou exaltando sentimentos e intuições, confirmando ou detratando a própria identidade.

Quanto tempo ainda a biosfera e a humanidade poderão tolerar esses formatos cognitivos confusos e falaciosos, esses graves estados de divergências etoculturais que acometem estratos importantes da população que, em total desvario, esquecida dos seus talentos e saberes, ainda confunde representações míticas e narrativas com realidades factuais?

O prognóstico não é bom; lembro esses pacientes que afirmam detestar verduras ou frutas sem, ao menos, as terem provadas!

- Detesto as verduras; só me sinto atraído por batatas fritas e fast-food, não sei como mudar isso!

- Tente agora imaginar que esteja adentrando uma horta, colhendo verduras para uma bela salada…

Subitamente, o paciente esboça uma expressão de desgosto emitindo um curioso desarranjo glótico manifestando repulsa!

Atribuir gostos e sabores a imagem e símbolos é certamente uma das capacidades cognitivas mais surpreendentes e criativas; sem domínio, tampouco discriminação, o desatento facilmente confunde suas representações com a realidade sensível.

Descortina-se com clareza que é a metafisica, compreendida como ciência das relações atinentes ao que existe e se que representa nas perspectivas limítrofes do entendimento, que com mais força e tenacidade coordena a ação e o destino da humanidade, a sua referência existencial, seja conjuntiva, integradora, monista, ou, inversamente, no processo de divergência, a negação dessa identidade em prol a uma hipotética desnaturação, irrealística e catastrófica.

Uma vez definida, entronada na cultura, a perspectiva metafísica, como um crisol alquímico, condiciona o formato existencial fundamental; imaginar pertencer à organização natural, ou não, ser matéria, ser pensamento ou ser mistério, junto como os modos cognitivos basilares de filtrar informações e conceituações, ceticismo, fideismo ou espanto. Desta forma se configuram os formatos societários e constitucionais, oficiais ou não, que resultam na geração de governanças políticas ou civíticas que, por sua vez, regulam as missões fundamentais, que sejam projetadas para naturar (termo espinoziano) ou extrapolar em instâncias culturalistas – surpreendentes obrigações legais e morais, atribuições e funções, evocação de destinos sobrenaturais, vias catequizações, proselitismos e outras beligerâncias.

Portanto, são os dois eixos possíveis de perspectivas metafísicas – que em outros escritos defino e denomino transcendente-transcendental (o dualismo onde se imagina a separação da consciência e processos conscientização do mundo fatual) e cosmo-existencial (o monismo da consciência cósmica) – que regem esses ordenamentos.

É o reconhecimento da condição humana à luz da metafísica cosmo-existencialista, entendida como estado-de-ser natural de escopo cósmico, universo de nomes e descritores, que, efetivamente, pode fazer jus à razão sabia, plena ou qualificada, permitir a instalação de uma adequada convergência etocultural, fundamento necessário ao surgimento de uma sociedade onde seja possível reinar a civítica.

Somos seres universais em consciência e de fato, unindo numa única e indissociável esfera existencial nomes [objetos] e descritores [representações]. Não somos apenas coisas, ou apena representações, ideias ou metáforas; somos o que é inexplicável, admirável e espantoso, a conjunção impreterível dos dois atributos; é esse reconhecimento apenas, como uma terra fértil, que possibilita o cultivo das virtudes e valores essenciais e específicos do estado-de-ser humano e realizações correlatas.

3 – DAS DESVENTURAS ETOCULTURAIS

O que é possível saber, pensar, imaginar ou informar, de alguma forma conhecer – sejam sentimentos, opiniões, deliberações científicas, filosóficas ou matemáticas – envolve o sujeito e sua natureza; evocar uma dicotomia radical como uma ‘coisa em si’, ou, na reversão do conceito, uma ‘consciência em si’ é absurdo e leva a arbitrariedades. Sendo a realidade em que se vive um compósito impreterível de coisas e cogitos; sendo o Homo sapiens sensível e reflexivo, autopoiético, as realizações humanas são intermediadas em decorrência de fenômenos cognitivos, num sentido abrangente envolvendo as razões sensíveis e racional, geradores de distinções definidoras de procedimentos, logo, estabelecendo práxis. É o conjunto das identificações e práxis compartilhadas ao responder à pergunta ‘quem somos’ que mais categoricamente promove relações e associações, incentivando a formação de interesses, objetivos comuns e formas culturais.

Nesta dimensão existencialista, qual a identificação humana mais fundamental atinente a um padrão cultural? É a que se estabelece ao contemplar e apreciar as conexões entre a consciência e seus objetos, ou seja, entre as ordens do cogito e da natureza. Essa apreciação constitui o definidor existencial e cultural mais fundamental e efetivo; portanto, o discernimento identitário mais básico e potente reporta a uma distinção de ordem metafísica.

Nessa dinâmica formadora de aculturação, o discernimento metafísico, identificador social mais valente e fundamental, pode acontecer em dois modos, conjuntivo ou disjuntivo. No discernimento conjuntivo, a vivacidade das intuições e o sabor do belo (o saber) elucidam uma perfeita e olímpica convergência entre as ordens do cogito e da natureza, a igualança resplandece e luz numa plena harmonia que se consagra em vitalidade e saúde, compartilhamentos cotidianos e espontâneos. No modo disjuntivo, o indivíduo dissociado e decaído enreda em representações inquietantes, malogra em desencontros ofuscantes e irreais, onde o idêntico gora numa humilde e minguada assimilação simbólica do que se considera radicalmente outro.

Resultando na afirmação de um ou outro eixo de perspectiva, seja dualista ou monista (na definição filosófica precisa: perspectiva transcendente-transcendental ou perspectiva cosmo-existencial), a sagacidade metafísica configura o identificador cultural mais abrangente e determinante, primaz em relação aos demais que referem a critérios sectários, partidários, étnicos, nacionais, familiares, laborais entre outros.

Instalado o fundamento metafísico divergente, o cultivo societário desarmônico resultante não é facilmente desafiado em prol a uma apreciação autônoma, por três razões: primeiro, o âmbito cultural predefine os identificadores que necessitam ser reconhecidos e assimilados para estabelecer intercâmbios; segundo, a capacidade de cogitar se depura devagar, tanto nas dimensões evolutivas e históricas quanto nos momentos dos indivíduos; terceiro,  a intensidade cognitivo e o tino filosófico necessários ao ajuizamento e valorização dessas relações não são triviais; assim sendo, as formas culturais (práxis, usos e costumes) são geralmente assimiladas ao abrigo de possíveis revisões e exames críticos. Ademais, em ocasionais âmbitos em que logram vigorar a identificação cosmo-existencialista, os processos de integração, embora acontecendo com espontaneidade, demandam, para se ilustrar com a clareza, uma rara aptidão poética e um saber refinado e sutil apto a intuir e evocar o silêncio e o ignoto onde se delimita o que parece múltiplo, sendo um só.

Além das dificuldades inerentes ao desafio da perspectiva metafísica divergente instalada, as suas consequências secundárias (alinhamentos políticos e tradições culturais) estratificam âmbitos societários adversos a mudanças. Os hábitos e conservadorismos estruturados em alinhamentos históricos, em etiquetas e arquiteturas verticais e redundantes como edificações góticas ou barrocas, em conjunto com à lucrativa multiplicação de funções e cargos, alimentam a máquina estatal disfuncional e estorvam as possibilidades de sanar o âmbito sociocultural. Alheamentos, desconfianças e frustrações são as consequências típicas da iniquidade e da discórdia; expressam-se nas relações interpessoais e ecológicas encarretando efeitos colaterais, derivações e processos neuróticos de compensação com um intenso desperdiço de recursos em trivialidades e diversões, esbanjamentos que retroalimentam as disfunções, o merchandising e o consumismo.

Com toda evidência, desafiar uma cultura instaurada na perspectiva metafísica dualista, ou divergente, demanda a superação dos tabus que acobertam os dogmas; vencer preconceitos exige inconformismo para renunciar às relativas zonas acadêmicas e sociais de conforte e comodismo, coragem para suplantar as balizas anatematizadoras assim como uma ainda rara intensidade cognitiva e filosófica, inclusive estética e poética, apta a explorar os limites do entendimento.

Claramente, as perturbações geradas pelo estado de divergência etocultural e suas resultantes funestas não se solucionam revisando interpretações de textos esotéricos e tradicionais; tampouco na escolha de líderes laicos ou religiosos de renomes, ou na indicação de burocratas mais experientes para melhor reger a máquina estatal. Questionamentos derivados não são aptos nem suficientes para libertar a humanidade das consequências culturais perniciosas de uma perspectiva metafísica desnaturada geradora de desrespeitos e políticas abusivas indutoras de práxis insanas e corrupções, relações irracionais e violentas.

O problema está em que se, de fato, cada indivíduo possui o direito de crer no que bem deseje, assim como declarar ou jurar aliança a quem bem queira, por outro lado, é evidente que são essas identificações desnaturadas, espúrias e constrangedoras contraídas sem critérios nem escolhas em ambientes culturais impositivos que destroem a humanidade no que apresenta de mais sagrado e específico. Apelar para um discurso metafísico que fere o bom senso e induz a se conformar com histórias que pregam uma origniação desnaturada exortando os infantes e fiéis a desprezar o exame filosófico e a apreciação cética dos conceitos assim como a crer no absurdo sem analisar nem julgar, sabota a excelência e destrói a razoabilidade, traço distintivo e específico da humanidade.

Por outro lado, as buscas que referem às ciências da natureza impulsionam a reintegração etocultural ao desvelar os processos da evolução e um pouco dos segredos da trama cósmica, do espaço sideral aos átomos. É a pesquisa científica que demonstra que as conceituações biotipológicas referentes as ditas raças humanas são insustentáveis, que só existe uma raça com variações fenotípicas; são as virtudes da razão que comprovam que as instruções genéticas que coordenam o desenvolvimento e funcionamento de todos os seres são prescritas por quatro nucleotídeos principais e – entre muitas outras preciosas descobertas – que uma pequena variedade de átomos (uma centena) resulta na infinidade dos existentes.

Infelizmente, é a decadência das ciências humanas em cientificísmo a serviço de manipulações políticas e socioeconômicas que estorva o afloramento das praxes e intercâmbios próprios de uma governança civítica; os sociocratas exortem a ter fé nas moedas de papel e nos líderes aclamados, rogos alinhados com as demandas sacerdotais de obediências em que se induz a renegar o bom senso e a razão para, igualmente, exortar uma mesma necessidade de fé, destarte nas escrituras, nos enviados e no além.

Estes desrespeitos instituídos em falsificações, adulterações e ignorância aviltam a humanidade e estimulam o depauperamento e a destruição do bioma que padece as consequências das nossas insanidades sistematizadas em políticas elitistas que manam da escolha fundamental; ser o não ser natureza, ainda hoje, anunciada como um ‘não’ dogmático e irracional emitidos por humanos ousando se afirmar representantes do além e senhores das criaturas.

Pois, é o dever dos pais, educadores, filósofos, poetas, artistas, antropólogos, economistas e de todas as pessoas de boa vontade zelar para que, desde o berço, seja respeitada e estimulada a aptidão humana para conhecer e construir saberes com autonomia e lucidez, em busca de sensatez. Frente a essas teocráticas e sociocráticas prepotências, afirmamos: somos natureza cósmica, sim, em consciência e de fato, aptos a reconhecer e valorar, até contundente prova em contrário, a nossa firme integração e união igualitária, libertária e fraterna com a totalidade dos existentes.

4 – DAS CONVERSÕES ETOCULTURAIS

A realização cosmo-existencialista é intuitiva e benigna, de fácil reconhecimento em condições pacíficas e honradas, mas, entorpece nos ambientes etoculturais divergentes, embaraça-se em apegos a medidas individuais e quantias reservadas, ofusca-se em desentendimentos, relapsos e evasões sobrenaturalistas. Quando o estado de perturbação se reifica, depoimentos e narrativas registradas em fragmentos de pergaminhos viram fatos como as ‘doenças mentais’ catalogadas pelos alienistas; as explicitações divagam em patéticas histórias de banimento que segregam os humanos do grandioso e do belo; as virtudes evaporam em brancas nuvens na forma de criaturas angelicais que passam a habitar no reino do sublime deixando os humanos na escuridão; engastam-se pingentes de folia nas páginas de uma literatura surreal que se transforma em livro da lei.

Sem uma cultura de qualidade que ela mesma deve elaborar, a humanidade não floresce, marca o passo nas trilhas da história lutando pela sua sobrevida e seu conforte em detrimento de tudo o que é outro com as previsíveis consequências. Os problemas típicos resultantes da rusticidade de algumas culturas se potencializam ao extremo quando seus integrantes são expostos a cultos irracionais induzindo processos dissociativos radicais. Crer não ser o que se é, não pertencer à esfera existencial onde se nasce, mas ter sido lançado nesta estranheza em decorrência de uma falta apriorística de virtudes (que, naturalmente, apenas procedem do justo reconhecimento da sua natureza e circunstâncias universais), afunila numa intricada armadilha.

Os que se beneficiam da distopia, encontrando ofícios privilegiadas, glórias e satisfações clânicas no exercício de um poder impositivo, tentam justificar seus domínios e tradições evocando o custo sociocultural exorbitante de uma guinada civilizatória, a dificuldade de implementar uma retificação filosófica e praxiológica dos hábitos socioculturais já instalados.

Este apartheid etocultural perdura estacado nos grandes pilares da fé: nas escrituras que advogam uma origem ádvena por segregação ou banimento culposo e fé na manipulação sociocrata e positivista dos recursos, intercâmbios e instrumentos monetários – o controle complementário e vigilante das produções culturais e artísticas, da educação e das mídias asseguram uma relativa estabilidade ao status quo.

Em âmbitos de tamanha alienação é urgente e necessário evocar o evidente, aclamar a natureza que nos gera e que somos. É preciso apontar a realidade da integração e conectividade universal, do belo presente nas portas da percepção; narrar histórias que reforçam a aptidão de reconhecer a existência como uma comunhão onde se compartilha a mesma biosfera e elementos formadores em condições de igualdade fundamental; achar contextos pedagógicos mais atentos e específicos para reafirmar essa cultura responsável e convergente em novos cultos e dedicações.

Não é difícil imaginar que em condições nativas e não deturpadas, indivíduos de espécies diversas como panteras, elefantes, águias, apresentam comportamentos típicos, de acordo com o seu ethos; só por domação uma pantera se comportará como um pet, um elefante como um veículo de carga e uma águia como uma pomba, com todos as dificuldades e disfunções imagináveis. Apenas através de imposições continuadas e superestratificações a comunidade humana, plenamente humana, deixará de ser civítica para se politizar nos jugos de diversas formas conluiadas de elitismos; teologias a serviço de etnias conquistadoras, governanças mercenárias coligando guerreiros e plutocratas, modernamente, sociocracias cientificistas e burocratas manipuladoras de moedas, informações e ideologias.

Sendo a dinâmica societária feita de coisas e cogitos, os acontecimentos se pontuam em histórias orientadoras e indutoras de rumos, precipuamente em períodos de crises e transformações. São as narrações, cujas ideias e conceitos extrapolam em algum grau a causalidade imediata e atualidade dos fatos, com sensatez ou não, que induzem escolhas e motivam os atos; o que se conta traceja o caminho da humanidade, a história é uma história.

Discursos muitas vezes repetidos reprimiram a civítica para instaurar ordenamentos políticos perdurantes. O idealismo platônico divergiu do saber pré-socrático com remotas concatenações – a república chinesa é a república de Platão. A universalização (do gr. Katholikós) imperial da divergência etocultural ordenada por decreto imperial e imposta em pautas canônicas no quarto século, destruiu os resquícios do mundo antigo ao introduzir a Idade Média que, séculos depois, igualmente desmoronou nas pautas do discurso mais prosaico e preciso de Descartes, esboçando-se uma clara tendência evolutiva projeitada nos conceitos geométricos de Spinoza, apesar do banimento.

Ao longo dessa formatação histórica escrita em rumos transviados, despontou o eventual Homo mediévico, ainda muito ativo entre nós; uma caricatura distante do que naturalmente corresponde a um ser humano; uma demonstração da formidável adaptabilidade e plasticidade autopoiética da humanidade e da sua intensa dependência das produções do cogito. O Homo mediévico foi criado para obedecer e não pensar; vivendo em burgos nucleados ao redor de conventos, embotado, fixava o pensamento num mundo imaterial almejando se salvar; ele passava o tempo acompanhando os decretos e escrituras dos seus senhores, trabalhando em tarefas dirigidas, prosseguindo compulsivamente o seu intento: purgar os pecados decorrentes do pecado de não saber enxergar-se dignamente no seu contexto original!

Mesmo com toda a ingenuidade, complacência e adaptabilidade ao subir a aplicação continua dos expedientes quantitativos do positivismo cientificista, não se consegue deturpar e reprimir a natureza humana para sempre, ela reage e ressurge das suas cinzas para reafirmar as suas insondáveis dimensões cujas causalidades essenciais escapem nas evidências do ‘saber não saber’ socrático.  As reações curativas às imposições divergentes acontecem de acordo com princípios universais (descritos em outros textos): o princípio da distribuição, do efeito dual, da adaptação, reintegração, equilíbrio e determinações circunstanciais, da sinergia e do élan heliotrópico.

Nesses processos evolutivos, acontecem inevitáveis processos de cura e convalescênça; inicialmente graves comoções e polarizações, depois desponta um forte racionalismo para melhor pensar e duvidar, em seguida um renascimento dedicado ao usufruto de maior liberdade e à justa apreciação da grandeza natural, antes de gótica ou barroca; na sequência impera um certo empirismo e naturalismo para melhor enxergar e experienciar o mundo; logo mais, um caloroso romantismo para voltar a sentir tudo de modo desenvolto e espontâneo.

As essas reações iniciais em modo de reconvergências etoculturais, agregam-se tendências reflexivas amplas e profundas, surgindo os delineamentos do deísmo e por fim ressurge um panteísmo similar ao dos pré-socráticos que evoca uma abordagem cooperante e benévola da existência ao exaltar a apreciação do belo e do grandioso, do divino entendido em termos quantitativo e qualitativo, cosmos cujos símbolos e metáforas passam a ser o sol, as constelações, a alvorada, a luz; uma passagem por onde a humanidade, antes alienada em sombras, acorda e volta a ser valente, é o iluminismo desafiando o hipotético!

O panteísmo spinoziano equaliza o conceito deus ao conceito natureza (deus, ou natureza), o que, para alguns, torna o termo deus redundante; advogar uma sinônima em busca de nuanças relativiza a equalização numa aproximação carente de veracidade. Entendo que a igualdade entre os significantes deus e natureza não se resolve na justaposição lado a lado dos designativos nominais, não se encontra num alinhamento horizontal. A equalização entre os termos aponta uma dinâmica pareada e sagital que inclui o sujeito e se realiza na correspondência sincrônica dos atributos existenciais. A equalização é um fenômeno evocado nas definições pontuais dos termos pareados (natureza – deus) assim como na plenitude dos tópos e contextos implícitos. Explicitando, o termo natureza refere ao conjunto universal dos modos do atributo extensivo (ou res extens), enquanto o vocábulo deus descreve a grandiosidade da realidade que se afirme refletida no cogito; portanto o termo deus não refere a coisa, ele é a realidade unitária e impreterível configurada pelo cogito universalmente intencionado.

O significado do termo deus se realiza nas suas adjetivações, divino ou divinal, que expressam as virtudes e qualidades visionadas e ressentidas frente à natureza por um sujeito saudável em pleno estado de convergência etocultural. Divino é o sujeito que em si mesmo conjuga o verbo ser na primeira pessoa – eu sou e sei me encantar frente ao belo. Avante humanidade, avante cosmos! Ressurja das suas cinzas, conte a narrativa vitoriosa e verdadeira em vozes altas e letras claras, desenhe a Nova Atenas, o Eldorado, aqui e agora, neste momento.

5- DA COMUNIDADE COSMO-SINÉRGICA E DA SUA CONSTITUIÇÃO

É falso afirmar que não existem culturas melhores de que outras; uma sociedade eto-cultalmente convergente é fundamentalmente mais sabia do que a desordem que hoje vigora porque condiz com a natureza humana que não é mais ordenada pelos instintos burilados ao longo da evolução das espécies, mas dirigida de acordo com padrões culturais operados por imitação ou escolha – evolução dirigida.

O processo evolutivo inteira três aspetos. A ‘evolução geral’ implica o surgimento e desparecimento da vida como um tudo, incluindo mudanças telúricas e astrológicas. A ‘evolução das espécies’ explicita os processos de transformações que regem o surgimento, perduração e eventual extinção de espécies ocupando o bioma. A ‘evolução dirigida’ refere ao rumo de uma espécie que, em algum grau, passa a escolher seu destino, com inteligência ou não, consciente ou omissa, com ou sem virtudes, interferindo fortemente no seu contexto existencial, ou bioma.

O termo autopoiese descreve dois níveis de atuação; refere aos processos gerais de retroalimentações entre as espécies e seu meio em que a produção natural (anabolismo ou catabolismo) de algumas entidades altera o ambiente, resultando na modulação transformadora desses mesmos agentes produtivos. O termo igualmente descreve a capacidade galgada por algumas entidades de escolher e criar deliberadamente comportamentos produtivos aptos a interferir sobre o meio ambiente a ponto de modificar o bioma com efeitos significativos que incidem sobre os processos que regem a evolução geral e a evolução das espécies, inclusive o destino do próprio agente líder das mudanças.

Quando, através do exercício da volição e imaginação criativa, a espécie líder – estrutura de grande consumo energético e produtividade, fertilidade e mobilidade – se torna capaz de disjuntar os princípios da proporcionalidade e do imediatismo que regulam as interações entre as demandas do mundo físico e as suas respostas comportamentais, passando a demonstrar escolhas estratégicas como antecipações, procrastinações, reservas prudenciais e ocultações embasadas em previsões e elaborações de prognósticos, a dinâmica do bioma passa por extraordinárias modificações com diversas possíveis decorrências.

Os processos de mudanças ocorrem num sistema universal em que tudo é compartilhado em mecanismos de interdependências coligando o bioma, seus atributos objetivos e conscienciais (extans e cogitans) em uma única ordem biopsicossocial. Na vigência de um processo evolutivo dirigido – obra de uma espécie criativa que transcende os modelos e padrões típicos da evolução geral e das espécies – são os paradigmas culturais que mais determinam o destino, o rumo e a direção do processo existencial. Nesta fase evolutiva, evidencia-se com clareza ser a humanidade um fenômeno igualmente natural e cultural.

A aquisição de tais habilidades cognitivas sem o domínio e superação  das motivações arcaicas ainda intencionadas no sentido de reforçar anseios individuais ou clânicos, através de reserva de mercado, formação de monopólios e manipulações, resulta no darwinismo societário que estamos vivenciando em níveis globais, com uma forte tendência em direção à destruição de tudo o que não se enquadra nos compassos e moldes das frações dominantes. Esse processo se acelera em proporção ao aumento da produção e consume de energia e de informações, da mobilidade e intensidade das trocas que por sua vez dependem dos recursos disponíveis no sistema que, sendo limitados, se tornam escassos; evidencia-se uma dinâmica predadora que afunila em direção a um grave depauperamento do meio ambiente.

A orientação do processo evolutivo dirigido será dita benéfica quando acontecendo corroborando e fortalecendo um equilibro saudável e satisfatório interpolado entre, por um lado, o meio ambiente (a sua extensibilidade como um tudo, a sua organicidade básica nucleada ao redor dos infindos intercâmbios entre os reinos minerais, vegetais e animais) e, do outro, as atividades da espécie criativa e líder – no caso Homo sapiens, espécie complexa, de grande consumo energético e produtividade, de grande fertilidade e mobilidade, precipuamente, com imensas aptidões cognitivas e imaginação.

As incompletudes e inadequações das expressividades etoculturais relatam a duas fontes distintas de carências de visão e saber; sejam embaraços incidentais, imperfeições, doenças, falta de cuidados ou educação dificultando a expressão das virtudes apoteóticas da natureza humana, ou diversas formas de ignorâncias latentes ou embutidas nas formas culturais e nos cultos restringindo e reprimindo o justo ajuizamento dos fenômenos. Certamente, rusticidades excessivas e primitivismos dificultam o o pleno florescimento da natureza humana, o reconhecimento das suas relações universais e a instalação da justa cultura, mas são as narrativas religiosas sublimadas em mitos com características divergentes do ponto de visto etocultural que mais desnaturam e desviam a humanidade confundindo e falseando a sua identidade.

Apesar dos tropeços, a convergência das ideias e sentimentos ao redor das visões mais abrangentes e fecundas – isto é o progresso do bom senso e da razoabilidade na ausência de intensos agravamentos teológicos – seguem um rumo similar ao do crescimento das plantas em busca de florações; quando não embaraça em atrasos cognitivos ou ideologias divergentes, a perspectiva cosmo-existencialista tende a predominar em conjunção com formas consoantes de comportamentos e governanças, ajustando em harmonia etocultural a totalidade dos existentes. É esperado de uma humanidade saudável e livre, não reprimida, na plenitude das suas faculdades, atender as demandas cotidianas e, igualmente, espantar-se frente ao belo e grandioso em todas as escalas, intuir o que é efêmero e o que permanece, sentir a imaginação acompanhar as infinitas correspondências que se estabelecem entre as ideias e as coisas para verter a consciência na vastidão cósmica.

Ampla e não restringida, essa fusão criativa justapondo em união o que é da natureza e do cogito não estaca em enlaces rousseaunianos imediatos nucleados em percepções simples, mas tende a se ampliar em todos os alcances intuitivos da imaginação e resultar em um processo de conscientização cósmico com efetuações das praxes correspondentes – um processo criativo e atuante em que é impossível considerar a desordem causada pelo estado de divergência etocultural como um jogo ilusório e inconsequente, necessário ou fatal, de aparições enganosas – como se comprazem em afirmar alguns espiritualistas que se acomodam em quaisquer formas de governanças – ou ainda, no parecer de Shakespeare, ‘como uma história plena de ruido e de fúria, contada por um idioto e nada significando’.

A perspectiva panteísta ilustra amplamente a intuição antiga, notadamente taoista e jônica, em geral pagã, ao evocar a coincidência criativa e evolutiva de todas as coisas e ideias em um infindo conjunto unitário onde se destaque as similitudes e polarizações complementares das manifestações, as suas conectividades, interdependências e potenciais de mutabilidades de acordo com a qualidade eto-convergente do processo evolutivo dirigido. E na inexorável coincidência dessas correspondências que se consagra a existência identificada como uma incontornável união dos atributos, da totalidade e das partes. Da compreensão clara e firme dessa conjunção universal, onde igualmente assenta o amor dos amantes, das mães e o espanto dos filósofos, pode manar o desejo e a praxe de bem viver juntos, amizades e fraternidades, usos e costumes integradores – a arte da civítica.

Absoluto em cada forma o cosmos incorpora os mesmos vectores em tudo o que existe,  todas as partes compartilham o mesmo ordenamento universal, impossível a exceção. Sendo razoável e sensível, possuindo uma razão qualificada, o ser humano é capaz de confirmar as impressões e influências decorrente deste estado cósmico de ser; o que existe entre a multiplicidade dos indivíduos, a natureza e as partes, a consciência e seus objetos, o momento e o tempo configuram relações fundamentais que integram um único fenômeno.

As sociedades ou indivíduos que demonstram matizes cognitivos típicos da convergência etocultural despontam distantes dos impérios; existem tenuemente, locados fora ou nas margens das fronteiras conceituais das novas romas positivistas, bruxelenses ou outras; as suas histórias, ideias e projetos não se encontram nas prateleiras das bibliotecas, nas páginas das enciclopédias ou noticiários oficiais. Os que tentam idealizar e praticar uma eto-cultura convergente festejam e exercitam a consciência de ser cosmos no arco que o destino capacita, honram a existência e ofertam o melhor para contribuir com a realização própria e cultural.

Na consciência cosmo-sinérgica não vigoram elitismos prepotentes e autoritários porque ninguém é essencialmente superior a ninguém; não existem governos nacionais, mas uma constelação de pequenas aldeias e comunidades espargidas em meio à natureza em convivência harmoniosa. O respeito a todas as formas de vida é o fundamento dessa sociedade. A pérola dessa cultura é a educação, a capacidade de manter os que nascem despertos para a apreciação do belo e do grandioso que reside entre o verbo ser do sujeito e suas regências, nos intervalos conjuntivos, exclamativos e adjetivais.

Na sociedade cosmo-sinérgica a moeda é processual, tem a sua emissão e circulação diretamente controladas pelos indivíduos. O ato monetário, nesses parâmetros de criação e utilização, não pode ser fraudado porque não acontece por intermédio de um sistema monopolizado e regido por uma vontade ditatorial exercitada, apesar dos enseios e necessidades da comunidade, com o propósito de controlar e assenhorar-se do mercado e dos seus recursos, de controlar os processos de ofertas e demandas da sociedade. Enquanto a moeda verdadeira estimula a adequação e valor real da produção de cada um frente à praxe e ordenamento pacífico e livre da sociedade, o monopólio fiduciário escraviza a humanidade e destrói a criatividade, a diversidade cultural e a natureza.

Na nova sociedade as crianças nascem desejadas, recebidas como dádivas da natureza; reconhecem-se como fenômenos universais, exuberando talentos na intenção de contribuir e compartilhar para a bondade, saúde e o bem-estar da comunidade. O cultivo da contemplação é parte essencial da educação e cultura; as virtudes que correspondem a essa visão alimentam a arte maior, a civítica. A expressão da harmonia contemplada em todos os modos que se podem imaginar é o fundamento das demais artes que embelezam e fortalecem o estado de convergência etocultural; a noção de arte inclui a produção tecnológica que não difere da produção artística nos seus fundamentos, segue as mesmas intuições, os seus motivos, métodos e processos de realizações respeitam os princípios da necessidade e da harmonia. 

A CONSTITUIÇÃO DA COMUNIDADE COSMO-SINÉRGICA – UM ESBOÇO

A comunidade cosmo-sinérgica evolve e prospera em benefício de todos os seres; a sua constituição possui valor universal por afirmar a real identidade e natureza da humanidade, ethos, valores e deveres decorrentes.

DOS PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS

  1. Absoluta, a natureza é a estrutura criadora universal do espaço sideral às estruturas atômicas; é cosmos.
  2. A totalidade dos elementos, astronômicos e dos três reinos da natureza, cada uma das espécies e entidades, integram os processos criativos do cosmos.
  3. Para a humanidade, a realidade  desse estado-de-ser cósmico se configura em coexistência com sua conscientização, integrando em união inquebrantável os atributos da matéria-energia e do cogito.
  4. Nessas circunstâncias, pertence à humanidade, apta a apreciar seu estado-de-ser, afirmar essa consciência cósmica e seu gênio encontrando nas suas intuições compartilhadas os direcionamentos e sentidos culturais que mais honram e respeitam essa natureza integrada.
  5. Em busca de uma existência sempre mais harmoniosa e feliz, pertence aos integrantes da comunidade a responsabilidade de cultivar a sabedoria e a criatividade, estimular a prática da filosofia, da civítica, das artes em geral, incentivar as buscas científicas e o uso adequado e benéfico das tecnologias.
  6. Cultivando e respeitando a natureza, a aptidão para a razoabilidade e as virtudes decorrentes, a humanidade sera capaz de instalar neste planeta uma cultura que honra a sua natureza e potenciais.
  7. O respeito a todas as formas de vida, ancorado na consciência da ordem e harmonia universal, é o fundamento principal dessa sociedade naturalmente igualitária, fraterna e libertária.

DOS PRINCÍPIOS CIVÍTICOS

  1. O cerne da boa cultura é a boa educação; a capacidade de educar nos que nascem a capacidade de apreciar o belo e grandioso que reside no estado-de-ser, de respeitar a sua própria natureza.
  2. Considera-se fundamental cultivar e promover a vontade de coexistir em harmonia com todas os sistemas que integram e compartilham o bioma.
  3. Na comunidade cosmo-sinérgica a arte maior é a prática da civítica – as demais artes e técnicas nutrem e embelezam esse processo etocultural.
  4. Conjuntamente, as comunidades, locadas nos seus respetivos espaços geográfico, tendem a formar uma constelação de aldeias espargidas em meio à natureza estabelecendo uma convivência harmoniosa com o meio ambiente.
  5. As estruturas citadinas são basicamente horizontais, os materiais construtivos se adequam aos diversos locais e meios.
  6. A estrutura civítica da sociedade cosmo-sinérgica se realiza numa pluralidade de conselhos e governanças amplamente participativas, em quantidade suficiente para contemplar todas as áreas socialmente fundamentais, filosofia, agricultura, saneamento, engenharia, economia, energia, saúde, educação, pesquisa, comunicação, transporte e outras.
  7. Os conselheiros são apontados pelas coletividades em função das suas proficiências comprovadas ao longo de uma vida dedicada as suas respetivas áreas.
  8. Ser conselheiro não é uma profissão remunerada, é uma dedicação e um destaque coroando uma vida honrada, é uma contribuição graciosa à comunidade.
  9. Sendo as comunidades locais e regionais, mas interconectadas e complexas, um sistema monetário rege as trocas e dinamiza a produção e o consumo dos habitantes.
  10. A moeda é processual, tem a sua eventual emissão diretamente controlada pelos usuários de acordo com regras justamente predefinidas; nesse mister todos os participantes usufruem dos mesmos direitos e deveres.
  11. Nesses parâmetros de criação e utilização, a moeda é verdadeira e substancial, objetiva e pública, não podendo ser falsificada ou inflacionada.
  12. Os grandes projetos sociais são elaborados e avaliados amplamente nos diversos conselhos e em contato com os habitantes, escolhidos de acordo com os melhores pareceres, executados com prioridades e cronogramas que atendem necessidades reais e sensatas, de acordo com os valores socioculturais fundamentais.
  13. Os projetos públicos são financiados através das contribuições cientes, abertas e não impositivas dos indivíduos.

Enquanto isso, nos impérios e nas megalópoles globais, é a contraintuição metafísica dualista que estabelece a perspectiva exorbitante que fratura a evidente unidade do estado-de-ser e desvirtua a natureza humana no que tem de mais fundamental e precioso, o bom senso e a razão. O dualismo metafísico ultimamente irracional, fundamenta uma desordem proporcional ao desvario inaugural em que desmorona as possibilidades de experienciar um convívio harmonioso e inteligente, instalando-se formas teológicas e políticas impositivas e dogmáticas geradora das iniquidades, violências, monopólios, hipocrisias, subterfúgios e agendamentos ocultos, fartamente testemunhadas ao longo da história e na atualidade.

A correção dessas extravagâncias só será possível esclarecendo a perspectiva metafísica cosmo-existencialista, reconsideração necessária à instauração de uma profunda apreciação e respeito à natureza e à humanidade especificamente razoável e sensata, virtudes basilares através das quais poderão se afirmar valores e ordenamentos filosóficos, econômicos e sociais verdadeiros e honestos, civíticos.